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“Ta Due” de Alberto Koenig é a Persistência Consciente em tempos de Músicas Vazias | Análise&Opinião

D-AKIN Há 3 meses(Última atualização:Há 3 meses) 4 minutos lidos 6 visualizações

Em 28 de novembro, o artista e ativista Alberto Koenig lançou no seu site oficial, www.albertokoenig.com, a música “TA DUE”. 

Quase um mês depois, apresentou ao público o videoclipe desta faixa intensa, que mergulha nas complexas questões da emigração. Estamos diante de uma das grandes obras de 2025, com um registo profundo, envolvente e provocador, mas que provavelmente não receberá o reconhecimento que merece.

MÚSICA 

Alberto Koenig inicia a música com a frase emblemática do Poeta Eugénio Tavares, “Si ka badu ka ta biradu”, inscrita no Monumento ao Emigrante, na rotunda do Aeroporto Internacional da Praia. Tradicionalmente associada à emigração, a frase é reinterpretada pelo artista, que defende que os dirigentes cabo-verdianos deveriam criar oportunidades no país, evitando que os crioulos sejam forçados a emigrar e a sujeitar-se novamente a condições de dependência e exploração nas mãos de filhos de colonizadores.

O ativista reforça a ideia de que “somos todos emigrantes em algum lugar deste mundo” e põe o dedo na ferida ao retratar a forma como muitos cabo-verdianos desprezam irmãos africanos que procuram melhores condições no arquipélago. Esse contraste convida à reflexão: se não aceitamos ser alvo de termos pejorativos na Europa ou nos Estados Unidos, também não podemos denegrir a imagem dos nossos próprios irmãos. Com isso, Koenig confronta o poder da identidade e desafia o crioulo a levar a sério a necessidade de aprofundar a sua africanidade e de se libertar das garras do colonialismo.

Imagens retiradas do vídeo

VÍDEO

Numa transição cronológica, observamos aquilo a que o imigrante na Europa é frequentemente sujeito: trabalhos em obras, limpeza, lavagem de louça e, quase sempre sob pressão constante e alvo de desprezo. 

Depois, a narrativa desloca-se para “Sucupira”, na Praia (Cabo Verde), um ponto de encontro e convivência de diversas etnias africanas. Koenig descreve este espaço como um lugar onde é possível vender, trocar, consertar, comer, fazer tranças, entre outras atividades. Com essa dualidade, levanta uma questão central: “Será que a nossa morabeza muda conforme o país daquela pessoa?”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Num cenário cultural cada vez mais dominado pela busca incessante por entretenimento rápido, a obra “TA DUE”, de Alberto Koenig, destaca-se como exemplo de que ainda existem artistas conscientes, dispostos a provocar reflexão e desconforto. Diferente da produção artística voltada apenas à diversão, Koenig propõe uma experiência que exige atenção, sensibilidade e pensamento crítico do espectador.

No entanto, essa proposta encontra um obstáculo, sendo que o público é maioritariamente passivo. Acostumado à distração fácil e ao consumo imediato, grande parte dos espectadores não se dispõe a interpretar, questionar ou dialogar com a obra. Assim, a arte que busca sentido e profundidade acaba sendo ignorada ou considerada “difícil”, enquanto conteúdos superficiais ganham destaque.

Eis um dos grandes problemas da sociedade contemporânea que abdica da reflexão para se mergulhar na distração. O artista consciente tenta despertar consciências, mas fala para um público que, muitas vezes, prefere não ouvir.

Portanto, “TA DUE” não é apenas uma obra artística, mas um alerta. Ela revela que ainda há criadores comprometidos com o pensamento crítico, mesmo diante de um público que insiste em permanecer passivo. Cabe ao espectador decidir se continuará apenas consumindo distração ou se assumirá um papel mais ativo diante da arte e da realidade.

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