Uma das agradáveis surpresas para este início do ano foi ouvir LiNa Tera. A sua primeira música de estreia, “Ó Preta”, veio confirmar, mais uma vez, que Cabo Verde é um país que respira música e uma verdadeira fábrica de talentos.
Há vozes que surgem não apenas para entreter, mas para reposicionar a nossa história. LiNa é uma delas.

LiNa Tera “Joyce” no centro, com o elenco de “Ó Preta”
Diana Varela, Iolanda Ramos, Rosana Pereira e Wilcia Mendes Foto:@LiNaTera(Facebook)
MÚSICA
LiNa Tera assina o seu rasgo vocal sobre um instrumental que funde a tradição do Batuque com arranjos modernos de música acústica africana. “Ó Preta” soa como um apelido, um chamamento carinhoso, mas também como um despertar para o assumir e exaltar da melanina.
Esta canção serve de espelho e homenagem, de um caminho para a descoberta do amor-próprio. LiNa Tera olha para dentro e para a caboverdeanidade para nos dizer: “lembra-te de quem tu és… és linda, preta, sim”.
VERSO DESTAQUE
“Nau. Ntom Ko fika paradu, ku es bu menti fitxado. Bu tem ki rabela ke po podi enfrenta és mundu ki sa tenta durbau. Mas so ko dexa nau…”
Não. Não fiques parado, com essa tua mente fechada. Tens que te revoltar/reagir para poderes enfrentar este mundo que está a tentar derrubar-te. Mas só não deixes [que te derrubem], não.
Na minha perspetiva, LiNa Tera traduz nestas linhas a urgência de romper com a ignorância do passado e adotar uma postura de confronto contra quem tenta diminuir a identidade africana.
Para isso, é preciso conhecimento, voltar às origens e orientar-se pela ancestralidade. Só é livre quem sabe de onde vem. Estes versos tocam num dilema ainda presente em Cabo Verde: o de muitos fugirem das raízes afro e do preto retinto.

Captura de ecrã do videoclipe ‘Ó Preta’: LiNa Tera e as participantes em momento de troca de afeto e elogios.”
VÍDEO
O cenário é intimista e apela à troca de afeto. A ligação entre a artista e as meninas que participam, e que provavelmente se conhecem, reflete a necessidade de mudar o mundo começando pelos que estão à nossa volta. Detalhes como o “aparecer” e sair, o “sentar” e levantar, ou o abrir e fechar da cortina, são metáforas potentes da negritude. Estes takes evocam memórias de mulheres que foram subjugadas, obrigadas a esconder-se ou discriminadas com a ideia de que “este lugar não é seu”.
O QUE FARIA DIFERENTE?
A música capta uma realidade vivida por todas as mulheres africanas. No entanto, sinto que uns versos ao estilo interlude (áudio de conversa ou declamação) ficariam muito bem anexados a este capítulo para reforçar a narrativa.
No vídeo, embora o abraço à melanina das meninas seja belo, eu acrescentaria crianças. Incluí-las representaria o ciclo de cura e a continuidade da missão. Se estamos a preparar o presente e o futuro, a emancipação e a educação ancestral devem começar desde cedo.
O QUE FICA
Quando fala que jovens só querem música de fama e que instigam a desvalorização da mulher, LiNa Tera junta e resgata, com sentido de rebeldia, um tema de valor com a tradição outrora proibida e discriminada. Fica a necessidade de procurar marcas e sentido para viver como viemos para este mundo. “Preta” é a encarnação de uma revolta que precisa ser interiorizada.
E tu, sentiste esta força da ancestralidade ao ouvir “Ó Preta”? Partilha a tua opinião nos comentários!