Um manuscrito escondido por 40 anos revela uma verdade que muitos preferiam manter enterrada nas areias de São Vicente.

​O Achado no Sótão

A casa de Manuel, no Mindelo, cheirava a maresia, poeira acumulada e segredos. Após a morte do avô, um respeitado músico de serenatas conhecido como “Mestre João”, Manuel herdou a tarefa ingrata de esvaziar o casarão colonial. No último dia, quando o sol já se punha tingindo o céu de cor-de-rosa, ele subiu ao sótão pela última vez.

​No fundo de um baú de madeira de acácia, protegido por camadas de naftalina e envolto em panos de terra, ele encontrou um envelope de couro curtido. Não havia remetente, apenas uma data escrita com uma caligrafia trêmula: 19 de Setembro de 1975. Ao abrir, as mãos de Manuel suaram. Não eram joias, mas sim uma partitura amarelada, com as bordas queimadas pelo tempo. O título, escrito em letras garrafais, era “O Silêncio da Ilha”.

​Uma Melodia Sinistra

​Manuel, que cresceu com o violão nos braços, tentou dedilhar os primeiros acordes ali mesmo, no chão do sótão. A música era estranha. Diferente das mornas doces e melancólicas que o avô tocava para a avó, esta tinha uma cadência tensa, quase como um batimento cardíaco acelerado.

​Nas margens do papel, notas de rodapé escritas à pressa diziam: “Se o mar pudesse falar, as praias estariam vazias”. Manuel sentiu um calafrio. Ele decidiu que precisava de ajuda para entender aquela composição e partiu para a Rua de Lisboa à procura do único homem que ainda guardava a memória viva daquela década.

​O Relato do Velho Zé

​O “Velho Zé” estava sentado no seu canto habitual na Taberna do Porto. Quando Manuel estendeu a partitura sobre a mesa manchada de vinho, o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Zé tirou os óculos, limpou-os na camisa e olhou para Manuel com olhos marejados de medo.

​— “Rapaz, tu não sabes o que trazes nas mãos”, sussurrou Zé. “Esta morna foi composta por Tiago, o prodígio que desapareceu na semana da Independência. Diziam que ele tinha fugido para a Europa num cargueiro, mas o teu avô… o teu avô sempre soube que a história era outra.”

​Zé explicou que Tiago não era apenas um músico; ele era um observador. Ele tinha visto algo que não devia na zona portuária: um esquema de desvio de auxílio humanitário que deveria alimentar as ilhas durante a seca. O esquema envolvia os “Homens de Branco”, a elite que fingia ajudar o povo enquanto enriquecia com o mercado negro.

​A Noite da Revelação

​Determinado a honrar a memória de Tiago e do seu avô, Manuel organizou uma noite de “Música de Antigamente” num pequeno centro cultural local. Ele sabia que o principal suspeito do desaparecimento de Tiago, agora um influente empresário e filantropo chamado Sr. Alberto, estaria presente.

​Quando as luzes baixaram, Manuel subiu ao palco apenas com o seu violão de cordas de aço. O primeiro acorde de “O Silêncio da Ilha” cortou o ar como uma lâmina. Alberto, sentado na mesa de honra, congelou. Ele reconheceu a introdução que tentara apagar da mente durante quarenta anos.

​A letra, cantada por Manuel com uma voz rouca, descrevia um caminho: “Passa pela rocha preta, vira onde a lua não bate, debaixo do zinco velho, a verdade ainda late”. Era um mapa. Um roteiro para o crime que o tempo não conseguiu apagar.

​O Confronto Final

​No meio da música, Alberto levantou-se. O seu rosto, outrora calmo e autoritário, estava agora transfigurado pelo pânico. Ele tentou sair, mas as palavras da morna pareciam segurá-lo no lugar. A audiência, percebendo a tensão, começou a murmurar. O Velho Zé, do fundo da sala, apontou o dedo: — “A terra vai falar, Alberto! A música não morre!”

​A canção terminava com um sussurro: “O anel de ouro no dedo de quem matou, é o mesmo ouro que a fome roubou”. Alberto, num ato de desespero, saiu a correr para a noite, mas o dano estava feito. A curiosidade da cidade fora despertada.

​O que a Terra Guardava

​No dia seguinte, um grupo de jovens, guiados pelas coordenadas líricas da morna, dirigiram-se a um antigo armazém nos arredores de Salamansa. Debruçados sobre o solo indicado pela letra, começaram a escavar.

A três metros de profundidade, encontraram o impensável: centenas de latas de mantimentos enferrujadas com o selo de 1975 e, junto a elas, uma mala de instrumentos. Dentro da mala, estava o violão de Tiago e o seu relógio de pulso, ainda parado na hora em que o seu silêncio começou. Alberto nunca mais foi visto nas ilhas, tendo fugido num iate particular antes que a polícia batesse à sua porta. A morna proibida, agora, era o hino da justiça de São Vicente.

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