Alex Monteiro mostra em “Korason di Omi Pretu” a sua vivência histórica, uma realidade com que muita gente se vai identificar. Ele, que se autointitula artista consciente, desconstrói aqui uma narrativa com séculos de vida que ainda oprime o quotidiano do preto. Conseguimos ouvir e sentir o knowledge que ele quer espalhar e é por isso que este lançamento merece o selo Cabo Verde Files.
MÚSICA
A música tem uma mensagem densa. Gostei da rimas iniciais terminadas em “e-t-o”; trazem uma cadência que prende o ouvinte para o que vem a seguir.
O Alex expõe nesta faixa a farsa das ideias vendidas pelo homem branco em relação ao homem preto. Ele posiciona-se e afirma que o “coração de homem preto é perfeito” porque foi feito pelo Criador, deixando claro que o preto não é praga nem a raiz do mal.
VERSO DESTAQUE
“Nu sabi é ka di hoji kes planta ses venenu / Pa nu mata kumpanheru pes podi controlanu”.
_Sabemos que não é de hoje que plantaram o veneno, fazendo-nos matar uns aos outros para nos poderem controlar.”_
Aqui, o Alex fala da memória coletiva e da maior vitória de quem colonizou: semear o ódio e a dúvida para dividir o povo preto e, assim, conseguir conquistar.
Se já leste a carta de Willie Lynch, entendes como ele, estrategicamente, dominava os escravizados através da divisão (se não leste, lê agora).

VÍDEO
Sozinho, entre as imagens de barcos e o mar, Alex Monteiro referencia uma das maiores crueldades da humanidade: a escravidão.
O mar e os barcos evocam o transporte nos porões, onde as pessoas eram tratadas como mercadoria. O mar aparece como o cemitério de milhões que preferiram a morte a viver em correntes e na humilhação.
Num dos barcos lê-se “Deus é Pai”, lembrando que o Criador é de todos, sem distinção de cor. No fim, com o punho cerrado, ele relembra a luta diária de resistência e a união com o seu povo.
O QUE FARIA DIFERENTE?
Poderia ter mais imagens que mostrassem o orgulho e a identidade preta, como rostos de Panteras que combateram a opressão. Sugeria também uma variação de luzes, usando o preto e branco para mostrar as correntes e a luz do sol como um novo clarear. A inclusão de cenas com palestras ou trocas de livros serviria como um guia para formar novos ativistas. Seria uma maneira, de também, apresentar soluções.
O QUE FICA
Quanto mais vozes se levantarem, mais se consegue contar a nossa versão da narrativa, sem ser aquela que vem nos livros focados na visão europeia. Alex Monteiro mostrou a sua visão e, a partir daí, surge o convite para atingir a liberdade total com união e conhecimento. Como dizia o ativista Marcus Garvey:
“Libertem-se da escravidão mental, porque ninguém além de nós próprios pode libertar as nossas mentes.”