No mais recente episódio do podcast “Hits Bai Sons na Memória”, gravado no cenário paradisíaco da Ilha do Mussulo (Luanda), o apresentador Ad Mandela recebeu uma lenda viva: Beto Dias. O que se seguiu não foi apenas uma entrevista, mas uma masterclass de história, técnica musical e vulnerabilidade humana.

Beto Dias, o homem que transformou o Funaná e deu ao Zouk uma nova identidade, abriu o jogo sobre os bastidores da Miss Jane, a parceria com Susana Lubrano e uma revelação estatística que chocou a produção.

A Génese: O Guitarrista que se tornou Voz por Acaso

A carreira de Beto Dias é marcada pelo destino. Emigrado na Holanda aos 14 anos, a sua paixão inicial era a guitarra. O seu pai, numa viagem a Cabo Verde, comprou-lhe o instrumento e, em apenas uma semana, Beto já “tirava sons” que deixaram a família impressionada.

A transição para vocalista no grupo Rabelados (fundado em 1989) foi fruto do acaso. Sendo apenas o guitarrista da banda, Beto aproveitava as ausências do vocalista principal nos ensaios para cantar “na brincadeira”. A sua afinação e o timbre único forçaram a banda a colocá-lo na frente do palco. Foi assim que nasceu o “passaporte” para o sucesso: o álbum “Unidade de Amor”, com os hinos “Santamaro” e “Nostória”, este último considerado por Beto como um dos melhores Funanás de sempre.

🇦🇴 A Revelação Digital: “Angola é o meu maior mercado”

Uma das confissões mais impactantes da entrevista foi baseada em dados reais do Spotify e YouTube. Beto Dias revelou que, embora seja cabo-verdiano, é em Angola que a sua música mais ecoa.

“Hoje, com a tecnologia, eu tenho provas: todos os meses, o país que mais consome a minha música é Angola”, confessou o artista.

Esta ligação começou com o álbum “Saudade” (1994/95). Enquanto em Cabo Verde ele era o “homem do Funaná”, foi a música “Sin Beeba” (Se Eu Soubesse) que o apresentou ao povo angolano. A letra, que fala da dor da emigração e do arrependimento de deixar a terra e a família à procura de uma vida melhor na Europa, tornou-se um hino de resiliência em Luanda.

Engenharia Musical: BPMs e o “Coro de Estrelas”

Beto detalhou o processo técnico de dois dos seus maiores sucessos, revelando decisões que mudaram a sonoridade do Zouk:

  • A Resistência em “Nós Dois”: Em 2000, ao produzir esta faixa, os seus colegas queriam aumentar o BPM (ritmo) para tornar a música mais “dançável”. Beto resistiu, querendo algo lento, com um baixo inspirado no R&B americano. Ele provou que o sentimento valia mais do que a velocidade.
  • O Mistério de Sónia Andrade: Durante décadas, pensou-se que era Susana Lubrano quem cantava o dueto em “Até Um Dia”. Beto desmitificou: a voz pertence à saudosa Sónia Andrade.
  • A Escola de Nelson e Johnny: No álbum “Quase Perfeito” (2004), Beto convidou dois jovens talentos que estavam a começar: Nelson Freitas e Johnny Ramos. Eles fizeram os coros de músicas como “Amor Incondicional”, e Beto recorda como eles ficaram fascinados no estúdio, percebendo ali o potencial do Zouk moderno que estavam a criar.
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Confissões de um Coração Exposto: “Ki Vida” e “Vítima de Paixão”

Beto Dias é um compositor que escreve o que vive. Ele confessou que:

  1. “Ki Vida” foi escrita após uma rejeição real, onde a pessoa amada lhe pediu “tempo e espaço”. Beto transformou essa mágoa num hino para todos os que vivem “enganados pelo amor”.
  2. “Vítima de Paixão” foi um pedido desesperado a Deus. A letra surgiu num momento em que ele sentia que não conseguiria sobreviver a uma separação. Curiosamente, a música serviu como um canal de comunicação que acabou por salvar a relação na altura.

O Legado com Susana Lubrano

A parceria com Susana foi descrita como algo orgânico. Mais do que amigos e parceiros de banda, Beto e Susana partilham uma filha e uma história de vida. Beto revelou ser o “compositor fantasma” por trás de álbuns como “Fofo” e “Tudo Pa Bô”, escrevendo letras e criando melodias especificamente para o timbre de Susana, o que explica a simbiose perfeita entre os dois.

Olhando para 2026: “Bo ki ta dam” e a Nova Geração

Apesar de viver rodeado de nostalgia, Beto Dias não para. O artista destacou o sucesso estrondoso de “Bo ki ta dan” em Cabo Verde um som mais moderno que tem conquistado os jovens  e o seu dueto com o filho em “Feito Para Bô”.

A sua mensagem final foi de paz e paciência: “Dêem chance para as coisas acontecerem de forma natural. Não forcem o sucesso, forcem a qualidade.”


Factos Rápidos do Podcast:

  • Podcast: Hits Bai Sons na Memória (Ep. 04)
  • Apresentador: Ad Mandela
  • Local: Ilha do Mussulo, Angola.
  • Curiosidade: Beto escreveu “Nós Dois” num crioulo mais suave para garantir que os angolanos e moçambicanos compreendessem cada palavra.

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