A inspiração dos Tubarões Azuis nascendo nos campos de terra batida.
Nas ruas de terra batida e calçada de Mindelo, o futebol não é apenas um jogo; é a coreografia oficial do final de tarde. Assim que o sol começa a descer atrás do Monte Cara, colorindo o céu de tons alaranjados, as crianças de São Vicente esquecem as tarefas de casa, juntam quatro pedras para fazer as balizas e transformam qualquer espaço livre num estádio de classe mundial.
Para o pequeno Edmilson, de dez anos, o futebol tinha uma cor muito específica: o azul da camisola dos Tubarões Azuis. Enquanto a maioria dos seus amigos corria atrás da bola gritando os nomes dos grandes avançados internacionais, Edmilson preferia ficar na baliza. Ele não se importava com os joelhos esfolados na terra ou com os remates fortes que lhe deixavam as palmas das mãos vermelhas. O seu herói era outro. Edmilson queria ser o Vozinha.
O guardião da baliza cabo-verdiana era, para o rapaz, um verdadeiro gigante. Alguém que defendia o orgulho de uma nação inteira com a mesma segurança com que segurava uma bola difícil no ar.
O problema de Edmilson era a falta de material. Na sua zona, conseguir umas luvas de guarda-redes verdadeiras era um luxo distante. Mas a criatividade crioula não conhece barreiras. No quintal de casa, o rapaz encontrara duas esponjas velhas de lavar pratos e, com um pedaço de corda de pesca que o pai trouxera do cais, atava-as firmemente ao redor das mãos antes de cada partida.
— Lá vem o Edmilson com as suas luvas de lavar pratos! — troçava o Kéké, o avançado mais rápido da rua, enquanto fintava dois defesas. — Prepara-te, Vozinha das esponjas, que este remate vai direto ao ângulo!
Edmilson não respondia. Batia com as palmas das mãos uma na outra, ouvia o som seco das esponjas e agachava-se, fixando o olhar na bola de couro gasta. Kéké rematou com força. A bola subiu rápida, ganhando um efeito perigoso devido ao vento de leste que soprava na tarde de Mindelo.
O pequeno guarda-redes não hesitou. Deu dois passos rápidos para o lado, impulsionou o corpo esguio no ar e voou na direção da bola. O impacto foi direto nas esponjas atadas às suas mãos. A bola bateu, perdeu força e Edmilson prendeu-a contra o peito antes de cair na terra batida, levantando uma pequena nuvem de poeira.
A rua ficou em silêncio por um segundo. Depois, até os rapazes da equipa adversária começaram a aplaudir.
— Que grande defesa, pá! Parecias mesmo o Vozinha contra a linha de ataque dos tubarões! — gritou o Kéké, ajudando o amigo a levantar-se e sacudindo-lhe o pó das costas.
Ao cair da noite, com o jogo terminado, Edmilson desatou as cordas de pesca e guardou as suas luvas de esponja debaixo do braço. Caminhou em direção à Avenida Marginal, onde as luzes da cidade começavam a acender-se e o mar batia calmo contra o paredão.
Olhou para o horizonte, na direção do oceano imenso, pensando em como uma nação tão pequena conseguia produzir atletas tão gigantes, capazes de fazer frente às maiores potências do futebol mundial. Ele percebeu que a força dos Tubarões Azuis não vinha dos estádios modernos ou das luvas caras; vinha daquela mesma raça, da resiliência de quem aprende a voar na terra batida e a transformar a falta de recursos em pura determinação.
Edmilson sorriu, colocou a bola debaixo do braço e correu para casa. No dia seguinte haveria mais jogo, mais remates difíceis e mais voos na terra. O Vozinha de Mindelo estava pronto para qualquer desafio.
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