A Ética de Trabalho: O “Lobo Solitário” do Estúdio
Nelson revelou um detalhe fascinante sobre a sua dinâmica com Johnny Ramos e a equipa da M-Base. Enquanto a criação era coletiva durante o dia, a finalização era solitária. Nelson descreve-se como alguém que ficava acordado quando todos iam embora:
- Controlo de Qualidade: Ele era quem “limpava” as vozes e ajustava os reverbs.
- A “Luz Certa”: Ele mencionou que, para gravar sucessos como “Rebound Chick”, precisa de um ambiente específico: luzes apagadas e isolamento total. Isso mostra que, para ele, a música é uma canalização espiritual, não apenas um processo industrial.
2. A Rebeldia contra o “Status Quatro” da Indústria
Um dos momentos mais fortes da entrevista foi quando Nelson falou sobre a criação da sua própria editora.
- O “Não” dos Distribuidores: Na década de 90 e início de 2000, os distribuidores europeus eram rígidos. Diziam que o som dos Quatro “não ia bater” porque não era nem R&B puro, nem Zouk tradicional.
- Independência: Em vez de mudarem o som para agradar às editoras, eles tornaram-se empresários. Criaram a sua própria distribuição, o que permitiu a Nelson manter a sua identidade bilíngue (Crioulo/Inglês) que hoje é a sua marca registada.
Radiografia dos Hits: Técnica e Emoção
O Fenómeno “Si bu krê” (A Quebra de Tabus)
Nelson explicou que a força dos Quatro residia no contraste. Enquanto a música de Cabo Verde na altura era mais conservadora, eles trouxeram o lado “sexy” e “urbano”.
- Marketing Visual: Ele admitiu que o facto de serem uma “Boy Band” com estilos diferentes (rastas, tatuagens, estilo R&B) foi uma estratégia visual que os destacou imediatamente nas discotecas de Luanda e Lisboa.
“Deeper”: O Teste de Som Internacional
Nelson recorda que “Deeper” foi o momento em que ele provou que o Zouk podia ter a mesma qualidade de mistura de uma produção de Timbaland ou Rodney Jerkins. A música era tão “limpa” e tecnicamente avançada que os seus próprios colegas duvidaram que a voz fosse natural.
🇦🇴 Angola: O Termómetro do Sucesso
Nelson foi muito enfático ao dizer que a sua carreira deve tudo ao público angolano.
- Pioneirismo: Ele notou que os angolanos têm um ouvido muito recetivo ao novo. Enquanto outros mercados esperavam pela aprovação da rádio, em Angola a música “batia” organicamente nas ruas e nos clubes.
- Colaborações Estratégicas: A sua ligação com produtores como ngunza e artistas como Big Nelo não foi apenas por amizade, mas uma procura constante pela batida perfeita que unisse o groove de Luanda com a produção da Holanda.
Roteiro de Ouro: A Evolução de Nelson Freitas
| Época | Fase | Hit de Referência | Significado |
| Anos 90 | Brotherhood | Cibocrê / Angolana | A fase da inocência e dos amigos de escola. |
| 2006-2008 | Afirmação Solo | Deeper / Decisão | Provar que conseguia carregar o palco sozinho. |
| 2010-2013 | Explosão Global | Rebound Chick / Bote Mel | O momento em que o som se tornou “mainstream”. |
| 2016-Hoje | Maturidade | Miúda Linda / Bo Kita Dan | O estatuto de lenda e a colaboração com a nova geração. |
A Tour de 2026: “The Storyteller”
A grande novidade é o seu afastamento dos grandes palcos para concertos íntimos. Nelson quer ser um “contador de histórias”. Ele sente que a nova geração consome música muito rápido e quer que os fãs entendam o peso de cada letra:
- Mentoria: Ele quer usar estas salas pequenas para apresentar novos talentos locais (guitarristas, produtores).
- Legado: O objetivo não é vender bilhetes, mas garantir que a história do Zouk moderno seja contada por quem a escreveu.