Antes de puxar, não puxes a arma.” No novo ‘single’ “Nos Crianças”, Kabeço Realkpm faz mais do que música; ele lança um manifesto. Através de uma fusão inédita entre a crueza do Drill e a batida ancestral do Batuque, o artista viaja da saudade das ribeiras à urgência das ruas para fazer uma pergunta que ecoa em cada bairro de Cabo Verde: estamos a proteger o nosso futuro ou a entregá-lo ao perigo?
Mergulha nesta análise exclusiva do Cabo Verde Files sobre a obra que está a redefinir o rap de intervenção em 2026.

Onde o caminho para o saber cruza com a rota da violência: o retrato de uma infância que cresce sob a sombra do conflito.
O Retrato do Passado (A Herança e a Segurança)
A primeira parte da música utiliza elementos rurais e tradicionais para definir o que é ser criança em Cabo Verde.
- “São das Mulheres que vão à ribeira… Com os seus meninos preso a cinturas”: Aqui, Kabeço destaca a conexão física e emocional entre mãe e filho. A ribeira não é apenas um lugar de trabalho, mas um espaço de convívio onde a criança está protegida.
- “Eles vão para a escol’a sozinhos / Os mais velhos vão à frente”: este trecho é crucial. Ele descreve uma autonomia que hoje se perdeu. A ideia de que “a aldeia educa a criança” é reforçada pelo verso “As pessoas mais velhas os controlam”, sugerindo uma vigilância comunitária benevolente.
- “É nos tempos que não tinha perigo”: esta linha marca o tom de saudosismo, estabelecendo o padrão de ouro para o que a infância deveria ser.
A Crise de Identidade (A Influência e a Perda de Valores)
No meio da música, o tom muda. Kabeço introduz o conflito geracional.
- “Mas as crianças de hoje muita influência”: O artista aponta para o efeito “espelho”. As crianças não ouvem apenas o que os adultos dizem, elas imitam o que eles fazem (“Se os mais velhos fazem / Eles também fazem”).
- “Pai, escola ou rua, que não os educam”: Kabeço distribui a responsabilidade. Ele não culpa apenas um fator, mas aponta para uma falha sistémica na estrutura de apoio ao jovem.
O Apelo à Paz (O Ativismo Social)
A letra deixa de ser apenas uma descrição e passa a ser um pedido de socorro e uma ordem de paz.
- “Antes de puxar / Não puxes a arma”: este é o verso mais forte da música. É um comando direto para travar o ciclo de violência urbana.
- “Zona com zona não se dão / Zona com zona tem que se dar”: aqui ele aborda as rivalidades territoriais (as guerras de “gangues” ou bairros). Ele usa a lógica simples da convivência para mostrar que o conflito entre zonas é o que destrói o futuro das “crias”.
A Missão (Criança como Futuro)
O refrão e o final da música funcionam como um mantra de proteção.
- “Criança é futuro, criança é nossa vida”: Ele eleva a criança ao status de património nacional.
- “Eu digo-te estas coisas porque eu também tenho crianças”: ao usar a sua posição de pai, Kabeço tira a “máscara” de artista e fala como um cidadão comum, aumentando a empatia e a força da mensagem.
Conclusão da Análise Lirical
A letra é um exercício de consciência social. Ela não apenas aponta o erro, mas oferece a solução: amor, carinho e educação. Kabeço consegue ser duro na crítica aos adultos, mas extremamente terno ao falar dos meninos, criando um equilíbrio que torna a música um hino de proteção à infância cabo-verdiana.