
Freirianas Guerreiras entregou ao público, neste sábado, 12 de dezembro, o tema “Preta La Di Fora”. Uma canção carregada de nostalgia, que transporta quem a ouve à realidade vivida no passado, mas que ainda ecoa na vida de quem hoje a experiência.
A música, dedicada às pretas do interior, tem tanto de afirmação como de valorização e pertencimento.
MÚSICA
O instrumental vibra com a sonoridade do batuco e do ‘reggae’, conferindo à música uma roupagem contemporânea assumida pelo coletivo.
Para além da vocalista principal, Ana Mileida, ouvimos a voz e o timbre de outro elemento do grupo, que se encaixou de forma harmoniosa, enriquecendo a interpretação e reforçando a força coletiva.
VERSO DESTAQUE
“Anoz ké PRETA, PRETA fina. Nu ka tem luz ma nu tá brilha.”
Nós somos PRETAS, PRETAS de valor. Não temos luz, mas brilhamos.
No sentido literal, o verso nos faz reviver a falta de eletricidade nas casas do interior Cabo Verde), lembrando o uso de candeeiros ou velas.
Já no plano simbólico, transmite resistência, identidade e orgulho, mostrando que o brilho não vem da luz elétrica, mas do movimento, do olhar, da presença e do ritmo das mulheres.
VÍDEO

Fonte: canal @AnaMileidaMendes
O cenário da “Casa de Pedra” funciona muito bem como pano de fundo, pois é claramente “interior” e “fora”, transmitindo uma forte carga nostálgica. Os objetos, como o balaio, o pau e o pilão, que aparecem no início e ao longo dos cenários, reforçam a ligação com a zona rural, onde ainda são usados no trabalho doméstico, na sobrevivência e na tradição.

O videoclipe permite, assim, que as pessoas revivam o quotidiano e sintam que a comunidade não foi esquecida.
O QUE FARIA DIFERENTE?
A música funciona mesmo sem o vídeo, mas algumas escolhas poderiam ser repensadas.
Os objetos aparecem mais como símbolos estéticos do que como práticas quotidianas, não sendo totalmente vividos no momento. Um ambiente mais “terra terra” ajudaria a reforçar a conexão entre vídeo e música.
É visível que não foi gravado em Cabo Verde, mas poderiam explorar mais elementos típicos. Sente-se falta daquela matriz crioula, do “cheiro de casa” presente em vídeos como “Nha Marido” ou “Nta Bai Ku Bo”. Nestes exemplos, o espaço cultural se integra de forma mais autêntica.
O QUE FICA
A mensagem da música é bem conseguida e tem grande impacto, especialmente na diáspora. Ela reforça a necessidade de não esconder a origem nem o jeito de ser para se encaixar. O coletivo Freirianas Guerreiras demonstra uma visão de brio, elevando a fasquia na valorização da identidade e da cultura. A fusão do ‘reggae’ com o batuco remete ao início da carreira de Mayra Andrade, quando o estilo diferenciado da sua morna era criticado. Porém, esta combinação é audaz e corajosa, conferindo à música uma força única e marcante.