A recente polêmica envolvendo a campanha das Havaianas com Fernanda Torres tornou-se o maior estudo de caso sobre a polarização política no Brasil em 2025. Enquanto parlamentares brasileiros promovem o boicote à marca e destroem seus próprios chinelos, em Cabo Verde, a sandália de borracha continua a ser um dos artigos mais desejados, um símbolo de qualidade e uma conexão afetiva com o Brasil.
Esta “guerra dos chinelos” revela uma divisão profunda: para uns, um manifesto político; para outros, uma lição de pragmatismo e valor real.
O Trocadilho de 2026: O Estopim da Crise
Tudo começou com uma frase de duplo sentido. No anúncio, Fernanda Torres afirma: “Eu não quero que você comece 2026 com o pé direito”. A intenção da marca era um jogo de palavras criativo sobre “entrar com os dois pés” (no sentido de intensidade e entrega), mas o clima de polarização no Brasil transformou a publicidade em um campo de batalha.
- A Interpretação Política: Setores da direita brasileira interpretaram a fala como uma alusão direta às eleições de 2026, sugerindo um posicionamento político da marca contra o campo conservador.
- A Reação do Mercado: O boicote às Havaianas transbordou das redes sociais para a economia real. A Alpargatas, detentora da marca, enfrentou oscilações no valor das suas ações na bolsa de valores, provando que o ativismo digital hoje dita o ritmo do mercado financeiro.
Cabo Verde: Por que os Cabo-verdianos Amam as Havaianas?
Longe das bolhas ideológicas do Brasil, a realidade no arquipélago africano é pautada pela utilidade. Em Cabo Verde, a Havaiana não é um símbolo partidário; é um ícone de resistência.
- Qualidade e Durabilidade: Em cidades como Praia ou Mindelo, a “Havaiana original” é o calçado oficial para enfrentar o clima e o terreno. Onde o custo de vida é um desafio, a durabilidade de um produto é o seu maior argumento de venda.
- O Presente da Diáspora: Nas malas que chegam da comunidade emigrada ou de familiares que visitam o Brasil, as Havaianas são tratadas como um tesouro. É o presente clássico que une famílias.
- Desperdício Incompreensível: Para um cabo-verdiano que calcula cada escudo do orçamento, ver vídeos de deputados destruindo chinelos novos é um choque cultural. É a imagem do desperdício em nome de uma “birra” que não põe comida na mesa.
A Polarização como “Luxo” de Sociedades Estáveis
O cenário exposto pelo Cabo Verde Files levanta uma questão central: a capacidade de transformar objetos cotidianos em símbolos de ódio é um “luxo” de quem não tem problemas urgentes de subsistência.
Cabo Verde, com sua economia vulnerável a choques externos e dependência de importações, mantém o foco no que é essencial. A lição que vem das ilhas é clara: a sabedoria reside em saber quando um chinelo é apenas um chinelo. A necessidade de dividir o mundo entre “nós contra eles” através de uma sandália de borracha parece uma futilidade diante dos desafios do desenvolvimento real.
O Que Podemos Aprender com Esta Dissonância?
O episódio serve como um alerta para o marketing de influência e para a gestão de marcas em tempos de redes sociais. No entanto, o contraste com Cabo Verde nos recorda que a reputação de um produto construída ao longo de décadas ainda é o seu maior trunfo em mercados que priorizam a verdade do produto sobre o ruído da internet.
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