Capítulo 1: O Inverno da Alma

​Manuel Tavares vivia num fuso horário emocional. Em Lisboa, o seu corpo cumpria horários, mas a sua mente habitava as ruas de Santiago. Naquela manhã de 23 de dezembro, o frio da Margem Sul parecia atravessar as paredes do apartamento. Olhou para as mãos calejadas pelo cimento e pelo ferro; mãos que construíam prédios de luxo onde ele nunca entraria, enquanto a sua própria casa, na Praia, era apenas um esqueleto de tijolos à espera de mais uma remessa de remessas.

​A mensagem da irmã, Luciana, foi o golpe final: “Mano, a mãe não está bem. Ela guarda o lugar na mesa todos os dias, mas este ano o silêncio dela assusta-me.” Manuel sentiu o peso dos quinze anos de promessas vazias. O “próximo ano” tinha-se tornado uma maldição de adiamento.

​Capítulo 2: O Milagre da Diáspora

​No intervalo da obra, o desespero de Manuel transbordou. José, o colega brasileiro que partilhava com ele o pão e a distância, deu-lhe o empurrão necessário: “O tempo é o único patrão que não aceita horas extraordinárias, Manuel. Vai.”

​O que se seguiu foi uma prova de que nenhum cabo-verdiano é uma ilha. A notícia correu pela rede invisível da comunidade. No grupo de WhatsApp da Tabanka, no café da esquina, na fila do autocarro. Notas de vinte euros, amassadas pelo trabalho duro, apareceram como por magia. O primo do Luxemburgo enviou um código de levantamento; a tia de Roterdão mandou a sua parte. Em 48 horas, Manuel tinha o bilhete na mão. Era um bilhete de regresso à sua essência.

​Capítulo 3: O Limbo em Tenerife

​O aeroporto de Lisboa era um caos de luzes e anúncios, mas Manuel só via o rosto da mãe. Contudo, o destino tinha outros planos. Uma tempestade tropical, rara e violenta, fechou o espaço aéreo de Cabo Verde. O voo foi desviado para Tenerife.

​Instalado num hotel de trânsito, rodeado por desconhecidos, Manuel sentiu que o universo conspirava contra ele. A chamada para a Dona Maria foi banhada em lágrimas. Mas a voz da velha matriarca, do outro lado da linha, foi o seu porto seguro: “Manuel, meu filho, tu já chegaste. No momento em que decidiste vir, o teu coração aterrou aqui. O resto é apenas o vento a testar o teu querer.”

​Naquela noite, a sala do hotel transformou-se numa pequena embaixada da morabeza. Alguém apareceu com um violão. Outro abriu uma garrafa de grogue. As vozes uniram-se em mornas que falavam de partidas e regressos. Manuel percebeu que, mesmo ali, preso entre dois mundos, ele já não estava sozinho.

​Capítulo 4: O Reencontro e o Cheiro da Terra

​O dia 26 amanheceu com o sol de Santiago a reclamar o seu lugar. Quando o pequeno avião da ligação interna começou a descer sobre a Praia, Manuel colou o rosto ao vidro. Viu o Plateau, viu o mar azul-turquesa e sentiu o cheiro da terra queimada pelo sol — um perfume que Lisboa nunca conseguiria replicar.

​O táxi deixou-o à porta do portão azul em Achada de Santo António. O silêncio da tarde foi quebrado pelo som metálico de uma colher a cair no chão da cozinha. Dona Maria virou-se, os olhos nublados pela idade, mas o coração nítido pela intuição. O abraço durou uma eternidade. Não houve censura, apenas o reconhecimento de dois pedaços que finalmente voltavam a encaixar.

​Epílogo: O Segredo na Mala

​As três semanas passaram como um sopro de harmattan. Manuel comeu a cachupa da mãe, viu os sobrinhos crescerem diante dos seus olhos e caminhou pela areia do Tarrafal. No entanto, algo estava diferente.

​Na última noite, enquanto arrumava a mala para voltar a Portugal, Manuel encontrou um pequeno envelope escondido entre as camisas que a mãe lhe tinha passado a ferro. Não tinha nome, apenas um selo antigo e um cheiro a alecrim. Ao abrir, encontrou uma fotografia antiga de um homem que ele não reconhecia, com uma data escrita no verso: “Lisboa, 1975”, e uma chave de metal pesada.

​Dona Maria observava-o da porta, em silêncio, com um olhar que misturava segredo e esperança.

​— Há coisas que só o tempo certo revela, Manuel — disse ela baixinho. — Agora que voltaste a saber o caminho para casa, estás pronto para saber onde tudo começou.

​Manuel fechou a mala, mas o peso agora era outro. Ao entrar no avião de regresso a Lisboa, ele já não olhava apenas para o passado. Olhava para o envelope no seu bolso, sabendo que aquele Natal não era o fim de uma longa ausência, mas o início de uma busca que ele nem sabia que precisava de fazer.

O que o esperaria em Lisboa com aquela chave? E quem seria o homem da fotografia?

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