Há um pedaço de chão e rocha em Ponta do Sol que guarda a essência de Cabo Verde. Ali, onde o mar de Santo Antão vigia o horizonte, ergue-se a Mê Maia — a “Mãe Maia” — um monumento que não nasceu de gabinetes, mas do coração da diáspora. Foi o sonho de duas cabo-verdianas nos Países Baixos que, no ano 2000, deu forma a esta homenagem esculpida por Domingos Luísa.
Mais do que uma estátua, esta figura é a materialização da “Poderoza”. Com o lenço que protege a memória e o pilão que dita o ritmo da sobrevivência, ela representa a mulher que nunca pôde ser apenas figurante. Enquanto o mundo via a seca ou a ausência, ela via o sustento; enquanto as mãos pilavam o grão, o colo segurava o amanhã, personificado na criança que a acompanha. É o retrato fiel de quem foi, e é, agricultora, vendedeira e pilar doméstico, tudo ao mesmo tempo e sem nunca vergar.
Situada num miradouro que abraça a imensidão do Atlântico, a Mê Maia carrega na sua base uma promessa: a de que esta “nobre figura por nós amada” jamais será esquecida. Neste 27 de Março, olhar para este bronze é agradecer à mulher que, entre o mar e a montanha, transformou a resiliência na nossa maior herança cultural.
