Com 50 anos de estrada e uma vida que se confunde com o nascimento da nação cabo-verdiana, Zeca di Nha Reinalda (Emanuel Maria Dias Fernandes) concedeu uma das entrevistas mais reveladoras da sua carreira ao CV Cultural Podcast. Durante 1h46min, o artista não apenas recordou sucessos, mas revelou as cicatrizes, as premonições e as batalhas políticas que o tornaram o “Mensageiro do Povo”.
1. O Menino do Plateau e a Herança de Nha Reinalda
A entrevista começa com um mergulho nas raízes. Zeca recorda o Plateau da sua infância, onde o nome Nha Reinalda era sinónimo de uma mulher de fibra inquebrável. Viúva precocemente, ela sustentou a casa vendendo “rapussada” e divertimentos.
- O detalhe da bicicleta: Zeca emocionou-se ao contar como a mãe juntou dinheiro para lhe comprar uma bicicleta, e como ele próprio aprendeu a montá-la e desmontá-la peça por peça uma metáfora para a sua própria vida, onde teve de se reconstruir várias vezes.
- O nome religioso: Batizado como Emanuel (“Deus connosco”), Zeca carrega essa espiritualidade como um escudo contra as adversidades.
2. Bulimundo e a Alquimia do Funaná Elétrico
Zeca detalhou os bastidores da revolução musical dos anos 70/80. Antes do Bulimundo, a música de Santiago era marginalizada.
- A transição da gaita: Zeca explicou como o grupo “bebeu” da fonte da gaita e do ferrinho e os traduziu para a guitarra elétrica e sintetizadores.
- A saída em 1982: Pela primeira vez, o artista detalhou as razões da sua saída do grupo no auge da fama. Entre a necessidade de sustentar a família recém-formada e a busca por autonomia criativa, Zeca decidiu seguir o seu próprio caminho.
3. O “Animal Político” e o Perigo do Partido Único
Um dos momentos mais fortes da entrevista foi a análise de Zeca sobre a sua intervenção política através da música.
- Músicas-Manifesto: Temas como “Democracia” (gravado em 1981, seis anos antes da abertura política) foram atos de coragem extrema. Zeca revelou que o grupo sabia que era vigiado, mas a missão de alertar o povo era maior que o medo.
- Justiça Seletiva: O artista foi contundente ao falar sobre a “Justiça de Colarinho Branco”. Denunciou que, enquanto as cadeias se enchiam de “coitados”, os poderosos permaneciam impunes um discurso que ele mantém vivo nas suas composições até hoje.

4. O Mistério de “DJonzinho Cabral”
Zeca pôs fim a várias especulações sobre um dos maiores sucessos dos Tubarões, música que ele próprio ajudou a moldar através da recolha popular.
- A verdade histórica: Ele revelou que a música foi apresentada num ato político em 1976 (o 3º Congresso do PAIGC) e que a letra original, vinda do bairro, não tinha conotações políticas diretas até ser adaptada.
5. Misticismo e o Encontro com a Morte no Fogo (1995)
Zeca partilhou uma experiência transcendental durante a gravação de um videoclipe no Vulcão do Fogo em 1995.
- Premonição: Sentiu o ronco da terra e, por instinto, afastaram-se segundos antes de uma pedra incandescente atingir o local onde estava.
- Numerologia: O artista revelou a sua obsessão mística com os números 10, 12 e 13. Ele vê padrões nestes números em todos os grandes eventos da sua vida.
6. Conexões Históricas: Os Nomes que Marcaram Zeca
Durante a conversa, Zeca fez questão de honrar figuras que cruzaram o seu caminho e moldaram a música das ilhas:
- Cesária Évora: Recordou a amizade profunda e o “quase” dueto que nunca chegou a gravar, mas destacou o respeito que a Diva tinha pelo seu estilo.
- Bana: Mencionou o “Rei da Morna” como uma referência de prestígio e convivência, lembrando momentos em que partilharam palcos e equipamentos.
- Norberto Tavares: Citado como um companheiro de luta e reivindicação na diáspora, que também usava a música para questionar o sistema.
- Kino Cabral: Zeca lembrou a importância de artistas que, como ele, mantiveram a chama da música de intervenção e identidade.
- Beto Dias e Suzanna Lubrano: Mencionou a evolução da música e a importância de projetos de dueto que marcam gerações.
- Ferro Gaita: Destacou o papel do atual Ministro da Cultura (Gugas Veiga ) na gestão e promoção do grupo, ligando a música à gestão cultural do país.
- Imanuel (Neno) e Zézé di Nha Reinalda: O papel fundamental do seu irmão Zézé como uma figura paterna e parceiro de vida na música.
7. Saúde e o Triunfo na Assembleia Nacional
Após 12 anos de silêncio forçado por problemas graves de saúde (incluindo uma cirurgia neurológica), o concerto dos 50 anos na Assembleia Nacional foi o seu “teste de fogo”.
- A Performance: Zeca cantou por mais de 3 horas seguidas, provando que a voz e o “feeling” continuam intactos. Ele descreveu este momento como uma “salvação”.
8. O Legado: Humildade e Novas Gerações
Zeca encerrou a entrevista falando sobre a sua relação com os jovens. Colaborações com Ga da Lomba e Lonny Johnson mostram que ele não é um artista do passado, mas um mestre do presente.
- O Segredo: “Não consigo cantar uma música duas vezes da mesma maneira. Tenho de encarnar a letra como se fosse um ator”. Para Zeca, a música só faz sentido se houver verdade e humildade.
Conclusão Editorial (Cabo Verde FILES)
Zeca di Nha Reinalda não é apenas o Rei do Funaná; é um património imaterial de Cabo Verde. Esta entrevista é um guia para entender a alma de Santiago e a resiliência de um povo que canta as suas dores para as transformar em alegria.
Assista a este documento histórico: Zeca di Nha Reinalda – Entrevista Completa (1h46min)
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