Isidora Semedo Correia, mais conhecida como Nha Balila, é uma figura que personifica a resistência cultural. Nascida a 12 de dezembro de 1929, carrega aos 96 anos uma memória impressionante sobre detalhes da vivência crioula e a sobrevivência a eventos que marcam a história de Cabo Verde. Até à atualidade, mantém-se como uma personalidade atenta e ativa na opinião pública, sendo por isso considerada um “arquivo histórico pensante“. Embora invisual, esse facto nunca a limitou no amor pelo Batuku, expressão onde é considerada rainha, escrevendo sempre as suas próprias letras e acreditando no poder das palavras.
Desta imensa bagagem de quase um século, extraímos os factos que moldaram a sua resistência e a sua filosofia de vida

A GÊNESE DO “Dentu di alguen…”:
A expressão que define a sua ética surgiu de um episódio da infância, quando questionou o pai sobre o respeito entre crianças que pararam de brigar assim que os pais chegaram. Foi ali que compôs a música sobre o valor interno de cada um (dentu di alguen ki é alguen), embora só tenha conseguido gravá-la décadas mais tarde.
O VEREDITO DE “Bali Pena”
O nome do seu grupo foi um “batismo” de um tio que, ao vê-la atuar com uma força fora do comum, exclamou: “Balila, bo bu bali pena!” (Balila, tu vales a pena!). Com base nesta validação, ela estruturou o grupo com 14 elementos, sendo 12 mulheres e 2 homens.
A EXCLUSÃO ESCOLAR COMO IMPULSO
Expulsa da escola aos 10 anos porque o professor considerava que a sua cegueira a tornava “inútil”, ela criou um método próprio de preservação intelectual: “estudar com a memória” e “escrever com a ideia”. Tornou-se assim a guardiã de um património que a educação formal tentou descartar.
O ENFRENTAMENTO À IGREJA
Antes da independência, desafiou a proibição do Batuku num casamento familiar ao convencer um catequista de que a música não era pecado. Liderou uma batucada que atravessou a noite, marchando da Assomada até à Serra Malagueta, ignorando as ordens clericais que ameaçavam a bênção dos noivos.
O BATUQUE CONTRA A FOME
Durante a crise de 1947 e o trabalho nas roças de Angola, para onde partiu aos 20 anos, o ritmo foi o seu sustento real. Para ela, era uma necessidade física: “Se estou com fome, sacia-me”.
A SENTINELA CRÍTICA DA RÁDIO
Mesmo sem ver, Isidora é uma das cidadãs mais informadas de Cabo Verde através da rádio. Utiliza este meio para intervir e criticar a perda dos valores de respeito, contrastando o “Cabo Verde escuro” do passado com o “Cabo Verde claro” de hoje.
LINHAGEM ÚNICA
É reconhecida como a última cantadeira de Finaçon da sua geração, dominando a técnica de improviso que serve como crónica viva da sociedade.

Uh iah , Txeu ka bu dam n’ka Sta Dodu
Oh mocinho na kôdju ka bu dam n’ka litón
Oh mocinho na teto ka bu dam n’ka gato
Oh mocinho na tchón ka bu dam n’ka galinha
Oh mocinho na rua ka bu pon n’ka Katchor”
NHA BALILA em “ AMOR DI POVO”
Fonte: @nosagenda @nhaterranhacretcheu
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files