O título “Trabadja só pa mundo” é uma profecia amarga que se cumpre duas vezes. Primeiro, na letra, onde Katuta Branka denuncia o sacrifício da mulher cabo-verdiana que sustenta a família para depois ser esquecida. Segundo, na realidade digital, onde o trabalho deste mestre — dispersa em vários canais — reflete a perda de garantia das obras pelos nossos mais velhos.

É a história do artista que, tal como a mulher que descreve, trabalha arduamente para que “o mundo” colha os frutos. Katuta, o autodidata que uniu São Tomé, o interior de Santiago e a Amadora, transformou a sua gaita num tribunal social, e é por isso que este lançamento merece o selo Cabo Verde Files.
MÚSICA
A composição é um “raio-x” intensamente real da alma feminina nas nossas ilhas e diáspora. Katuta, com aquela voz ligada à terra e expressões idiomáticas cruas, narra a história de uma mulher numa relação com a promessa de um lar, mas que acaba a herdar dívidas e a criar filhos sozinha, com a “fé em Deus” como única rede de apoio. O “trabalhar só para o mundo” aqui é a anulação da própria existência: ela foi o instrumento para que outros crescessem e, quando cumpriu o seu papel de “escada”, os filhos não reconheceram o degrau que os sustentou.
VERSOS DESTAQUE
“Kela ki caso da, na caso do kassábi / tudo tá djoben ki hora kin ta txiga / na caso di kassábi ki n’tem valor di mai / na caso di kassábi é mi ké mai é mi ké pai”
“Nos momentos de aperto e aflição, ficam todos à minha espera. É apenas nestas alturas que eu tenho valor de mãe; é nestas fases que sou mãe e pai ao mesmo tempo.”
Estes versos remetem para uma denúncia profunda, pois transmitem a exploração absoluta da “Mãe-Mulher“, muitas vezes reduzida a uma função de apaga-fogo. O seu valor é puramente utilitário: ela só é “mãe” quando há uma dívida para pagar ou uma crise para resolver. No resto do tempo, é invisível; no momento do “kassábi”, é o único alicerce que resta. É o retrato da solidão de quem assume os dois papéis por falta de alternativa, e não por escolha.
VÍDEO
Disponível há 11 anos no YouTube, o registo visual foca-se na dança e na alegria coreografada. Embora a música seja o recurso tradicional para espantar os males, há uma discordância gritante entre a imagem e a palavra.

Captura de Tela @avbprovideos
Enquanto Katuta chora a solidão da mulher explorada, o vídeo entrega apenas o entretenimento, camuflando a densidade da mensagem e denúncia social que ele coloca em cada nota de gaita.
O QUE FARIA DIFERENTE?
Esta obra pedia uma justiça narrativa e visual que honrasse a história contada na letra. Em vez de apenas dança, o vídeo poderia mostrar o rosto e o quotidiano das mulheres que inspiraram a letra — o trabalho calejado e o olhar de quem deu tudo sem receber nada em troca.
O QUE FICA
Fica o retrato de uma premonição social. Katuta Branka deu voz àquelas que a sociedade prefere manter em silêncio(entre o desaforo e a caridade), as mulheres que são “tudo” até se tornarem “nada“. Trazemos este registo para o arquivo para que o sacrifício das que vieram antes de nós nunca seja esquecido e para alertar que os nossos mestres precisam de apoio para proteger o seu património.
Que o “trabalhar para o mundo” deixe de ser o destino ingrato de quem constrói a nossa cultura. Fica também a urgência da centralização dos direitos digitais dos nossos icónicos artistas, para que o seu “suor artístico” não seja distribuído por mãos alheias. Tal como na letra, já chega de “trabadja só pa mundo”.
Nós tivemos a nossa percepção sobre esta música…E Tu? O que é que ouviste/sentiste?