Cabo Verde celebra, neste 13 de janeiro, 35 anos de liberdade e democracia. Para assinalar a data, trazemos Mayra Andrade, uma artista que dispensa apresentações e que nunca se prendeu apenas aos ritmos tradicionais.

Ela inventou o seu próprio caminho ao abraçar a liberdade linguística, rítmica e de atitude. Pull Up, do álbum Manga (2019), é a expressão dessa necessidade de se afirmar e de ser quem realmente se é. E se a democracia é o direito de existir, de se expressar e de circular livremente, então esta música encarna esse espírito.
MÚSICA
Pull Up é liberdade em forma de gesto. O instrumental tem um groove repetitivo que envolve e prende, fazendo o corpo mexer sem esforço. A calma de Mayra ao cantar transmite a sensação de estar exatamente no tempo certo para ocupar o próprio espaço. É uma música que se sente antes de se explicar.
VERSO EM DESTAQUE
“Ora ki N fla amarelu / Es ta fla ‘kuza é ka si’ / Ora ki N pega na pretu / Renki palpiti: ‘É así, é asadu, sta mariadu, ka podi…’”
“Quando digo amarelo, eles dizem: ‘isso não está certo’. Quando pego no preto, todos dão os seus palpites: ‘É assim, é assado, isso não é bom, não podes fazer isto.’”
Mayra sublinha como a pressão social pode aniquilar a liberdade de escolha quando não se tem autonomia. Ela reforça esta ideia com o apelo: “Deixa-me ser livre para ser o que realmente sou” (Nhôs dexa-n livri pa N ser, Kel ki realmenti mi N é).
VÍDEO
Os espaços abertos e fechados sugerem a tensão entre a liberdade e os limites impostos. A dança surge como elemento libertador, rompendo fronteiras.
O QUE FARIA DIFERENTE
A música acaba cedo demais e deixa-nos com aquela vontade imediata de carregar no replay.
É fascinante como a mistura de línguas flui com naturalidade, provando que a Mayra é, de facto, uma cidadã do mundo. Embora o vídeo minimalista seja elegante, talvez ficasse a ganhar com elementos que traduzissem melhor a sua resistência às opiniões alheias. Uma maior variedade nos trajes dos bailarinos, por exemplo, teria sido uma bela celebração da liberdade que a letra respira.
O QUE FICA
Sem perder a originalidade, Mayra Andrade carrega a liberdade tanto na composição quanto na interpretação. Com uma vivência global (Cuba, Senegal, Angola, Alemanha, França e Portugal), o diálogo intercultural corre-lhe nas veias. Pull Up é um lembrete de que a maior liberdade é, afinal, a de sermos nós próprios, sem filtros.
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