António Mascarenhas Monteiro não foi um político comum, mas sim o intelectual e magistrado que o destino escolheu para guiar o país no momento da sua maior viragem. Entre a independência em 1975 e o ano de 1990, Cabo Verde viveu sob um regime de partido único, governado pelo PAIGC/PAICV. Após esses quinze anos de poder exclusivo, o país precisava de alguém com o peso académico de Mascarenhas — formado na prestigiada Universidade Católica de Lovaina — para garantir uma transição sem sobressaltos. Vindo diretamente do Supremo Tribunal de Justiça, ele usou o seu profundo saber jurídico para transformar o desejo de mudança em normas sólidas, servindo de ponte ética entre o passado centralizado e o futuro da liberdade.

A grande vitória de 1991 não foi apenas ganhar uma eleição, mas sim criar as regras que usamos até hoje para evitar o arbítrio. Ao tornar-se o primeiro Presidente escolhido pelo povo num sistema multipartidário, Mascarenhas Monteiro usou a sua bagagem de jurista para dar corpo à Constituição de 1992. Ele não quis ser um “líder carismático” acima das leis, mas sim o arquiteto de um sistema onde os políticos passam, mas as instituições permanecem. Foi sob o seu olhar rigoroso que Cabo Verde aprendeu que a alternância de poder não é uma ameaça à paz, mas sim o sinal mais claro de saúde democrática e maturidade de um povo.

Zona Pedonal na Cidade de Assomada, em Santa Catarina de Santiago
Agora, com as eleições de maio de 2026 à porta, o nome de Mascarenhas volta a ser o nosso norte moral. Ele ensinou-nos que a democracia dá trabalho e exige um respeito sagrado pelas regras do jogo, independentemente de quem saia vencedor. Ao votarmos este ano, levamos connosco a herança de um homem que preferiu ser o guardião da Constituição a ser o dono da vontade popular. Mascarenhas Monteiro provou que, com seriedade, preparação académica e civismo, é possível construir um país onde o voto é a ferramenta mais poderosa de cada cidadão.