Neste 20 de janeiro, o Cabo Verde Files celebra o Dia dos Heróis Nacionais de uma forma diferente. Para Amílcar Cabral, a independência não se ganhava apenas com estratégia política, mas sim através da alma do povo.
Ele acreditava profundamente que a libertação nacional era, acima de tudo, um ato de cultura. Para Cabral, um povo só seria verdadeiramente livre quando recuperasse o orgulho na sua própria voz, na sua língua e nos seus ritmos.

Muitos não sabem, mas o próprio Cabral era um homem das artes. Sob o pseudónimo de Abel Djassi, ele escreveu poemas que mais tarde se transformaram em Mornas eternas, como o clássico “Regresso”. Ele entendia que a Morna era a nossa diplomacia silenciosa, uma forma de mostrar ao mundo a sofisticação e a dignidade da identidade cabo-verdiana, mesmo nos tempos mais difíceis de censura.
No entanto, a resistência também tinha um lado mais vibrante e, por vezes, proibido. Durante o período colonial, o Funaná era visto como uma ameaça. Por ser um ritmo profundamente ligado às raízes africanas do interior de Santiago, ele chegou a ser marginalizado e proibido nos centros urbanos. Tocar gaita e ferro era um ato de rebeldia física. Era o som da insubmissão que o regime colonial não conseguia domesticar.
Essa visão de Cabral sobre a música como arma de afirmação ganhou um novo fôlego com figuras como Katchás. Em 1978, ao eletrificar o Funaná com o grupo Bulimundo, Katchás estava a pôr em prática o pensamento de Cabral. Ele tirou o ritmo da clandestinidade e levou-o para os grandes palcos com guitarras e sintetizadores, garantindo que a juventude sentisse orgulho na sua própria herança.

“O homem que eletrificou o coração de Cabo Verde ao transformar o “ritmo proibido’ na maior bandeira da nação”.
Ao olharmos hoje para as fotos históricas das marchas populares e das celebrações nas ruas, percebemos que a liberdade em Cabo Verde teve uma banda sonora própria.
Celebrar Amílcar Cabral neste dia é também celebrar a coragem de todos os músicos que mantiveram a nossa cultura viva. Enquanto o nosso violão tocar e a nossa gaita vibrar, o legado da liberdade continuará presente em cada um de nós.
