Cabo Verde vive num ritmo próprio, onde o barulho do Carnaval dá lugar ao som dos talheres e das conversas em família.
Hoje, nas ilhas, o clima é de um abraço coletivo; as cidades acalmam-se e o interior ganha vida com quem volta a casa para honrar as raízes através da fartura do peixe seco e do cuscuz com mel.
Mas este banquete não para na linha do mar. Na diáspora, a distância pesa, mas a identidade afirma-se com a mesma força. Seja no Sucupira ou numa cozinha em Lisboa ou Boston, o espírito é o mesmo: a procura por aquele sabor que encurta os quilómetros e faz o coração regressar ao calor da terra.

O equilíbrio deste dia está na forma como a memória e a presença se cruzam à mesa. Enquanto em Santiago e no Maio se celebra com o abraço físico e a casa cheia, quem está fora recria o banquete através da saudade e de uma videochamada, transformando cada colherada/garfada de xerém num regresso simbólico. No final, as Cinzas provam que não importa onde o cabo-verdiano esteja; a tradição é o elo invisível que nos mantém unidos.

Entre o cheiro que perfuma as nossas ruas e a nostalgia de quem recria os nossos pratos além-fronteiras, celebramos a certeza de que a nossa maior fartura é, e será sempre, a nossa capacidade de nunca esquecer de onde viemos.
LEMBRANÇAS KI N’TEM DES DIA
…Dia di farto bedju dja tchiga. N’ta lembra sempre kes arguem bistido ku saco, rosto tapado ku carton e kel medo di … Bidibido. Hoji é dia ki n’lomba na cuzcuz ku Mel e sol num sinal. Sim pamodi ideia era ba descansa bandola la riba casa. Peixe seco ka era nha forte, mas ta nhemeba couve(hum…) Na Europa go bu podi inventa maz ka é mesmo kusa, lonji familia, mesmo ku ten kes produtos pa fazi, kel rotina de carne diariamente nu tá skeci di cinza ké manxi sóti na carne si kre nu peca…