Memórias e conexões da diáspora cabo-verdiana.
O Cheiro a Mar e a Tinta

Lisboa, 29 de Abril de 2026
Querida Nha Ana,
Escrevo-te desta janela em Alfama, onde o Tejo parece um espelho prateado sob o sol da primavera. Já se passaram três anos desde que deixei a Praia, e ainda hoje, quando fecho os olhos, sinto o cheiro a mar e a terra molhada depois da chuva. É um cheiro que me persegue, um doce tormento que me lembra de onde vim e de tudo o que deixei para trás.
Por aqui, a vida segue o seu ritmo acelerado. As ruas estão sempre cheias, as pessoas correm, e o tempo parece escorregar entre os dedos. Consegui o emprego que tanto queria, sabes? Naquela livraria antiga, perto da Sé. É um lugar mágico, cheio de histórias empoeiradas e o cheiro inconfundível de papel velho. Passo os dias entre livros, e às vezes, quando encontro um autor cabo-verdiano, sinto um aperto no peito, uma pontada de orgulho e, claro, de saudade.
Mas não penses que é tudo melancolia, Nha Ana. Lisboa tem a sua própria beleza, os seus próprios encantos. As noites de fado, as ruas estreitas que sobem e descem, as cores dos azulejos que contam séculos de história. Tenho feito amigos, alguns portugueses, outros de outras paragens, mas todos com a mesma sede de vida e de partilha. Falamos das nossas terras, das nossas famílias, dos nossos sonhos. E, invariavelmente, a conversa acaba por voltar a Cabo Verde.
Recebi a tua última carta, com as notícias da família. Fiquei tão feliz em saber que a pequena Kátia já está a andar e a dizer as primeiras palavras! Manda-lhe um beijo grande por mim. E o teu jardim, como vai? As buganvílias ainda florescem com aquela cor vibrante que só existe na Praia?
Às vezes, sinto-me dividida. Uma parte de mir está aqui, a construir um futuro, a aprender, a crescer. Mas a outra parte, a mais profunda, continua ancorada nas areias da Praia, nas conversas à sombra do embondeiro, no riso das crianças que correm descalças. É a tal “sodade” que nos acompanha, não é? Uma companheira silenciosa, mas sempre presente.
Escreve-me em breve, Nha Ana. As tuas cartas são como um pedaço de casa que chega pelo correio, um abraço que atravessa o oceano. Conta-me tudo, as novidades, as fofocas, os pequenos milagres do dia a dia. Preciso de saber que a Praia continua a ser a Praia, mesmo que eu esteja tão longe.
Com muito carinho e saudade,
Mariana
Próximo Post: A resposta de Nha Ana, da Praia, a Mariana em Lisboa.
E você, também vive longe de casa ou tem alguém querido na diáspora? Como você lida com a saudade e mantém os laços com as suas raízes? Partilhe a sua experiência nos comentários!