O Sr. Alistair não consertava relógios; ele negociava o arrependimento. Mas cuidado: para reescrever dez segundos de um erro passado, ele cobrará dez minutos de alegria do seu futuro.

A loja ficava em um beco onde a luz do sol parecia ter preguiça de entrar. O letreiro de ferro batido balançava com um rangido metálico, anunciando apenas “Relojoaria”, mas quem batia àquela porta raramente buscava pilhas novas ou ponteiros ajustados. O interior cheirava a sândalo e metal frio. Nas prateleiras, milhares de frascos de vidro continham uma substância que se movia como fumaça dourada: eram momentos.
Sr. Alistair, um homem cuja pele parecia feita de pergaminho antigo, observava o novo cliente. Era um jovem chamado Tiago, cujos olhos vermelhos denunciavam uma noite em claro.
— Eu só precisava de cinco segundos ,sussurrou Tiago, as mãos enterradas nos bolsos do casaco. — Cinco segundos para não ter atravessado aquela rua. Para não ter soltado a mão dela.
Alistair não demonstrava pena; a empatia é um luxo que os guardiões do tempo não podem pagar. Ele retirou uma pinça de prata e um frasco vazio.
— O preço você já conhece, rapaz. O tempo é uma balança perfeita. Se eu remover a dor de cinco segundos do seu passado, o universo exigirá uma compensação. Eu retirarei cinco horas de felicidade pura do seu futuro. Você não sentirá dor quando elas forem levadas, apenas uma vacuidade, um cinza profundo onde deveria haver cor. Aceita?
Tiago não hesitou. Ele assinou o contrato com um peso no peito. Alistair, então, abriu um relógio de bolso que não marcava horas, mas batimentos cardíacos. O jovem sentiu um puxão violento no estômago, como se o mundo estivesse sendo sugado por um ralo.
De repente, Tiago estava de volta à calçada. O asfalto brilhava sob a chuva. Ele sentiu a mão pequena e quente de sua irmã na sua. No momento em que ela ia dar o passo em falso para a avenida, ele apertou os dedos. O carro passou como um borrão metálico, buzinando agressivamente, mas a tragédia não aconteceu. O tempo estancou. O erro foi apagado.
Anos depois, Tiago estava no batizado de seu primeiro filho. O sol entrava pela igreja, a música era doce e ele segurava a criança nos braços. Era o momento mais feliz de sua vida. De repente, a luz pareceu perder o brilho. O riso de sua esposa tornou-se um ruído branco. Por cinco horas, Tiago olhou para o próprio filho e não sentiu absolutamente nada. Nem amor, nem orgulho, apenas o vazio frio da dívida paga.
Ele percebeu, tarde demais, que ao tentar consertar a dor do passado, ele havia amputado a capacidade de viver plenamente o agora. Naquela tarde cinzenta, em algum beco distante, o Sr. Alistair guardava mais um frasco de luz dourada em sua prateleira infinita.
O Sr. Alistair diz que o tempo é uma balança perfeita. Se você pudesse entrar naquela loja hoje, qual erro do seu passado você aceitaria apagar, mesmo sabendo que o preço seria perder momentos de alegria do seu futuro? Vale a pena reescrever a história?