O GPS dizia que o destino estava a dois quilômetros, mas a voz no rádio já estava narrando o momento exato em que eu pararia de respirar.
Eram 02:14 da manhã quando o celular vibrou no painel. O brilho azulado da tela era a única companhia de Marcos em uma noite onde a neblina engolia os postes de iluminação da estrada velha. “Corrida aceita”, dizia o aplicativo. O passageiro aguardava em frente a um cemitério desativado. Marcos sentiu um calafrio, mas o cancelamento custaria caro para sua nota.
O homem entrou no carro sem fazer barulho. Vestia um sobretudo escuro que parecia absorver a luz do interior do veículo. O cheiro que o seguiu não era de perfume, mas de terra molhada e ferro oxidado. Marcos deu a partida.
— Boa noite — disse Marcos, tentando quebrar o gelo. O silêncio foi a única resposta.
De repente, o rádio, que estava desligado, chiou. Uma estática agressiva preencheu o carro até que uma voz emergiu. Não era uma voz qualquer; era a voz do próprio Marcos, com o mesmo timbre e as mesmas pausas, mas com um tom desprovido de esperança.
“Ele agora olha pelo retrovisor,” dizia o rádio, “sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas. Ele se pergunta se o homem atrás dele tem um rosto, mas tem medo demais para conferir. Marcos não sabe que, daqui a três minutos, seus dedos vão travar no volante.”
Marcos tentou desligar o rádio, mas o botão girava em falso. O passageiro continuava imóvel, uma estátua de sombra no assento 4B.
“A curva à frente é fechada,” continuou a voz no rádio. “O freio não vai falhar por defeito mecânico, mas porque o tempo decidiu que a viagem de Marcos termina aqui. Ele verá o brilho dos olhos de um cervo na estrada e, ao desviar, encontrará o abismo que sempre o esperou.”
O pânico tomou conta. Marcos pisou no freio com toda a força, tentando parar o carro antes da tal curva, mas o veículo continuou deslizando a 80 km/h, como se as leis da física tivessem sido revogadas. Ele olhou pelo espelho retrovisor interno para confrontar o passageiro, para gritar, para pedir socorro.
O banco de trás estava vazio. O passageiro havia sumido, deixando apenas uma mancha de umidade no estofado.
Marcos olhou para a estrada. Lá estava ela: a curva. E lá estavam eles: dois pontos de luz refletida, os olhos de um animal parado no centro do asfalto. A voz no rádio deu uma última risada abafada antes de silenciar. No último segundo, Marcos percebeu que o passageiro nunca foi um estranho, mas o destino personificado, apenas esperando o momento de assumir o volante.
O destino, às vezes, parece um passageiro silencioso que sabe exatamente para onde estamos indo. Você acredita que nossas vidas já estão narradas em uma frequência de rádio que ainda não sintonizamos, ou acredita que podemos mudar a rota na última curva? Deixe sua teoria nos comentários.
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