Apagar alguém da sua mente é como arrancar uma página de um livro: você se livra do parágrafo que dói, mas destrói a coerência de toda a história que vem depois.
Esquecer o meu ex-marido custou apenas duzentos créditos, mas ninguém me avisou que, junto com ele, eu perderia a habilidade de sentir o gosto de café e a cor azul.
A Clínica Létes não vendia esquecimento; eles vendiam “espaço em disco emocional”. O procedimento era tão rotineiro quanto uma limpeza de pele. Elena sentou-se na cadeira de couro sintético, sentindo o metal frio do capacete de neuro-mapeamento ajustar-se às suas têmporas. O técnico, um homem de gestos mecânicos e olhos cansados, apenas perguntou: “Qual o período do expurgo?”.
— Três anos — respondeu Elena, a voz firme apesar do vazio no estômago. — De agosto de 2023 até ontem. Quero que cada jantar, cada briga e, principalmente, cada manhã ao lado dele seja transformado em estática.
O técnico acenou. Um feixe de luz azul neon preencheu a sala. Elena sentiu um formigamento, uma espécie de coceira elétrica por trás dos olhos, e então, um silêncio absoluto. Quando o capacete foi removido, ela sentia-se leve. Ao olhar para a aliança em sua mão, sentiu apenas uma curiosidade técnica sobre por que usava aquele aro de ouro. Ela não lembrava do nome dele, do rosto dele, ou do som da sua risada. O trauma fora extirpado com a precisão de um bisturi laser.
Ao sair da clínica, porém, o mundo parecia… errado. Elena parou em sua cafeteria favorita. Pediu o de sempre. Quando o líquido quente tocou sua língua, não houve conforto, apenas uma amargura metálica e insossa. O café, que antes era o abraço matinal que ele lhe dava, agora era apenas água suja. A neurociência do amor é cruel: o cérebro não guarda memórias em gavetas isoladas; ele as entrelaça em tudo o que sentimos.
Ao caminhar pelo parque, ela olhou para cima. O céu, que deveria ser de um azul vibrante naquela manhã de primavera, estava acinzentado, como uma fotografia antiga desbotada pelo sol. Ela perguntou a um estranho se ia chover. “O céu está lindo e azul, moça”, ele respondeu, confuso.
Elena percebeu o erro tarde demais. Para deletar as memórias dele, a máquina teve que apagar os caminhos neurais que eles construíram juntos. Como ele era quem sempre fazia o café, o sabor foi embora com ele. Como a cor favorita dele era o azul, o cérebro dela agora ignorava essa frequência para não correr o risco de tropeçar em uma lembrança perdida. Elena estava livre da dor, mas estava presa em um mundo sem sabor e sem cor. Ela havia recuperado seu futuro, mas perdeu os sentidos que o tornariam digno de ser vivido.
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