Falar de “Chiquinho”, de Baltasar Lopes da Silva, não é apenas falar de um livro; é falar do nosso bilhete de identidade literário. Seja para o cabo-verdiano que vive o quotidiano das ilhas, seja para aquele que carrega a morabeza na diáspora, este romance, publicada em 1947, permanece como o espelho mais fiel da nossa alma. Mas por que razão, em pleno século XXI, esta leitura continua a ser obrigatória?

O ESPELHO DA NOSSA EVOLUÇÃO
Para quem está em Cabo Verde, ler Chiquinho é um exercício de gratidão e memória. É olhar para as nossas cidades e campos hoje e compreender as lutas gigantescas dos que nos antecederam. A obra transporta-nos para o tempo da Claridade, onde o intelecto e a cultura foram as armas usadas para afirmar que não éramos apenas uma colónia, mas uma nação com voz própria.
O MAPA DA SAUDADE NA DIÁSPORA
Para a nossa vasta comunidade no estrangeiro, este livro é o regresso físico ao arquipélago através das palavras. É sentir o cheiro da terra molhada em Caleijão, o movimento intelectual do Mindelo e o aperto no peito diante do mar que separa e une. Chiquinho explica ao mundo — e aos nossos descendentes — porque é que partimos e, acima de tudo, porque nunca deixamos de querer voltar.
UMA LIÇÃO DE RESILIÊNCIA UNIVERSAL
A travessia de Chiquinho, da infância protegida à dureza da idade adulta marcada pela seca e pela emigração, é a história de todos nós. O livro ensina-nos que a resiliência não é apenas sobreviver, mas manter a dignidade e a sede de conhecimento mesmo quando o céu se nega a dar chuva.
A CELEBRAÇÃO DA NOSSA LÍNGUA
Baltasar Lopes escreveu em português, mas com o ritmo e o espírito do crioulo. Ao ler Chiquinho, celebramos a forma única como comunicamos, como sentimos e como transformamos a nossa dor em arte, seja na escrita ou na morna.
Ler Chiquinho pelo menos uma vez na vida é um ato de cidadania cabo-verdiana. É compreender que, independentemente de onde estejamos no globo, estamos todos ligados pelas mesmas “Águas”, pela mesma história e pela mesma esperança.
Se ainda não o leu, abra estas páginas. Se já o leu, redescubra-o. Há sempre um novo pedaço de Cabo Verde à espera de ser reencontrado em cada capítulo.
