Erguido no limiar do século XVI (entre 1512 e 1520) sob o pretexto de simbolizar o “poder municipal” e a “justiça real”, o Pelourinho da Cidade Velha — antiga Ribeira Grande de Santiago — é muito mais do que um marco arquitetónico. Ele é o marco zero de uma ferida profunda. No centro da cidade, onde se liam os decretos da coroa, operava-se também o comércio mais cruel da história humana: o mercado de corpos, a coisificação de homens e mulheres escravizados.

É o monumento mais antigo de Cabo Verde, sim, mas é, acima de tudo, a prova material de quinhentos anos de resistência.
O Estilo Manuelino: A Estética do Império Sobre a Dor
esculpido em mármore branco puríssimo, o monumento ostenta o estilo manuelino. Para o olhar desatento ou puramente turístico, desperta admiração estética; para quem conhece a história, cada detalhe esculpido na pedra ecoa o contraste violento entre a sofisticação da metrópole e a brutalidade imposta aos que ali eram acorrentados, açoitados e expostos como mercadoria.
Património da Humanidade: O Dever da Memória
Hoje, integrado na classificação da UNESCO como Património da Humanidade, o Pelourinho ergue-se ao lado da Rua da Banana, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, do Forte de São Filipe e das ruínas da Sé Catedral. Mas esta classificação não pode ser um processo de romantização do passado. Visitar este monumento de meio milénio é um ato de confronto com a nossa própria génese.
Além das feridas abertas, o que este lugar ainda guarda?
O Pelourinho guarda o silêncio ensurdecedor dos que foram calados, mas guarda também o embrião da cabo-verdianidade.
Se por um lado a estrutura evoca a revolta contra a opressão e a desumanização, por outro, ela testemunha o lugar exato onde as culturas se cruzaram à força, dando origem à resiliência, à identidade e à dignidade de um povo que recusou ser apagado.
Olhar para o Pelourinho hoje é perguntar: até onde caminhámos desde que aquelas correntes foram quebradas? O lugar guarda a memória do trauma, mas exige de nós a vigilância eterna pela liberdade.
Fonte: @ipc @visitcidadevelha
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files