A criação da galeria a céu aberto por Tutu Sousa, as mentorias ativas de Joaquim Semedo para as novas gerações e o sucesso internacional de Diana Ramos reabrem um debate crucial sobre as indústrias criativas nas ilhas. Estaremos a deixar as nossas artes visuais na sombra da nossa própria música?
Cabo Verde é, por definição e herança, um país musical. A nossa identidade foi esculpida pela morna, pelo funaná e pelo batuque. Os nossos cantores são embaixadores naturais, arrastam multidões na Baía das Gatas ou na Gamboa e esgotam os coliseus da diáspora. No entanto, esta omnipresente “cortina de som” muitas vezes ensurdece o país para outra forma de expressão que nasce nas ilhas com a mesma urgência: o traço, a textura e as artes visuais, e é por isso que este lançamento merece o selo Cabo Verde Files.
Enquanto a música beneficia de canais diretos de consumo em massa — está no streaming, nas rádios e na noite —, as artes plásticas exigem um tempo diferente. Exigem o silêncio, a paragem e a contemplação. E é nessa diferença que reside uma injustiça histórica: a sociedade foi educada para ouvir Cabo Verde, mas ainda está a aprender a olhar para ele.

A Ilusão dos Apoios: Milhões para o Palco, Centavos para o Ateliê
Existe uma contradição gritante na forma como as instituições gerem a cultura nas ilhas. Como bem denunciou o artista plástico Tutu Sousa numa entrevista à BANTUMEN, há empresas e entidades públicas que afirmam não ter orçamento para apoiar a internacionalização de um pintor ou a manutenção de uma galeria, mas surgem de imediato a patrocinar festivais de música que custam milhares de contos.

O dinheiro existe; o que muitas vezes falta é a prioridade política e institucional para as artes visuais. Levar o nome de Cabo Verde a palcos internacionais — como fez Tutu Sousa ao expor no Dubai e no Qatar, ou Joaquim Semedo ao expandir as suas galerias — ainda é, na maioria das vezes, um ato de coragem financeira que sai do próprio bolso do criador.
O Rosto da Nova Geração e a Força Feminina
Felizmente, a resiliência desta classe não se deixa travar pela falta de palcos institucionais. O ecossistema renova-se com vozes jovens, dinâmicas e femininas que desafiam o mercado tradicional. É o caso de Diana Ramos, artista plástica autodidata que, através do seu projeto DianArtes, prova que a pintura e as artes visuais não pertencem apenas às paredes estáticas de uma galeria.
Utilizando a resina e a madeira como as suas principais matérias-primas, Diana Ramos — que começou o seu percurso a partir da Cidade da Praia e hoje reside nos Estados Unidos — desconstrói fronteiras ao aplicar a sua arte a objetos utilitários do quotidiano. Ela retrata o mapa de Cabo Verde, as praias e a alma crioula em relógios, tábuas e peças de decoração, mostrando que a nossa identidade visual também brilha e se expande através da diáspora.

Foto@Balai.cv
É o exemplo perfeito de uma nova vaga de criadores que encontrou na internet, no ecossistema digital e no empreendedorismo uma forma sustentável de viver da sua paixão há mais de seis anos.
Da Marginalização ao Estatuto: Viver da Arte é Possível
Historicamente, o artista plástico em Cabo Verde carregava o estigma da “falta de ocupação”. Hoje, criadores de diferentes frentes provam que o setor é uma profissão legítima e geradora de economia. Joaquim Semedo demonstra-o diariamente com o seu projeto “Viagens nas Tintas”, que hoje estende os seus tentáculos em galerias na Praia, na Boa Vista e, mais recentemente, no Mindelo. Tutu Sousa abdica do seu emprego estável há anos para se dedicar inteiramente à tela e à formação de jovens. E Diana Ramos transforma as nossas memórias geográficas em produtos de exportação cultural a partir do estrangeiro.
Eles pagam contas, geram postos de trabalho, criam escolas e transformam comunidades. A recente aprovação na generalidade da Proposta de Lei do Estatuto do Profissional Criador e Produtor da Arte e Cultura traz uma lufada de esperança, prometendo dar proteção laboral e previdência social a quem vive do setor criativo. No entanto, o mercado interno que consome arte ainda é diminuto, dependendo em larga escala dos turistas e da comunidade emigrada.
Guardiões da Memória Visual
Se a música canta a nossa melancolia, os nossos pintores e artesãos plásticos dão-nos cara, textura e corpo. O trabalho destes criadores é profundamente político e social. Quando Tutu Sousa transforma o bairro da Terra Branca, na Praia, numa “Rua d’Arte” — uma galeria a céu aberto —, ele está a democratizar o acesso à cultura. Quando Joaquim Semedo descentraliza as suas galerias e quando Diana Ramos eterniza o azul das nossas águas na resina, eles estão a fixar a nossa história para que ela não seja efémera.
Eles retratam o rosto, as nossas cores vibrantes, o contorno das nossas ilhas e o quotidiano crioulo. Sem os artistas plásticos, Cabo Verde seria uma cultura sem espelho, existindo apenas como um eco.
O Apelo ao Pincel
Valorizar as artes plásticas não pode ser um ato cosmético de aparecer num cocktail de inauguração. Valorizar significa as empresas comprarem arte local para os seus escritórios, as grandes cadeias de hotéis decorarem os seus quartos com obras e artesanato contemporâneo original das ilhas em vez de réplicas baratas importadas, e as instituições perceberem que um pintor eleva o nome do país tanto quanto um cantor.
É tempo de estender o tapete vermelho aos mestres da cor com a mesma reverência com que o fazemos aos mestres do microfone. Cabo Verde é ritmo, sim, mas também é traço, pigmento, resina e alma visual. Precisamos de aprender a parar, a contemplar e a investir naquilo que os nossos artistas criam longe dos palcos.

no Centro Cultural John Dos Passos, ilha da Madeira [Portugal] 2025
Fonte: @inforpress, @balai, @bantumen
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files