A instalação da nova legislatura em Cabo Verde fica indelevelmente marcada na história política do arquipélago. Pela primeira vez desde a independência, uma mulher assume a liderança do poder legislativo, rompendo uma barreira de género histórica e redesenhando o topo da hierarquia do Estado. Janira Hopffer Almada foi eleita com uma maioria folgada de 63 votos a favor, num processo que consolida a transição política resultante das eleições legislativas e é por isso que este lançamento merece o selo Cabo Verde Files.
A votação expressiva — que contou com 63 votos a favor, 5 contra, 3 abstenções e 1 voto em branco — reflete não apenas a confortável maioria absoluta conquistada pelo PAICV nas urnas, mas também o reconhecimento do peso político da nova Presidente da Assembleia Nacional. No xadrez institucional cabo-verdiano, a presidência do Parlamento representa o segundo cargo mais importante na hierarquia do Estado, logo a seguir ao Presidente da República.

O Perfil e o Percurso de Janira Hopffer Almada
Jurista de formação, Janira Hopffer Almada cresceu num ambiente profundamente moldado pela política e pelo Direito, sendo filha de David Hopffer Almada, uma figura histórica de relevo que serviu como o primeiro Ministro da Justiça de Cabo Verde após a independência. No entanto, o seu percurso está longe de ser uma mera herança familiar; Janira construiu uma bagagem política própria ao longo de duas décadas de intervenção pública. Desempenhou funções governamentais de relevo como Ministra da Juventude, Emprego e Desenvolvimento dos Recursos Humanos, fez história ao tornar-se a primeira mulher a presidir ao PAICV e conhece profundamente o hemiciclo, onde já servia como deputada eleita.
Esta ascensão mexe diretamente com as estruturas de poder e com a perceção da liderança feminina na região. Embora Cabo Verde seja frequentemente elogiado pela sua estabilidade democrática, o topo do poder executivo sempre foi exclusivamente masculino. Ao assumir a liderança da Assembleia Nacional, Janira Hopffer Almada quebra um teto de vidro institucional profundo, deixando uma mensagem simbólica imensa para as próximas gerações de mulheres cabo-verdianas.
Além disso, o país aprovou uma Lei da Paridade para garantir um equilíbrio mínimo de 40% de mulheres nas listas eleitorais. Ter uma mulher a presidir a própria casa que fiscaliza e faz cumprir essa legislação confere uma autoridade moral e uma sensibilidade acrescida à agenda da igualdade de género, posicionando Cabo Verde na vanguarda da representação política na região da CEDEAO.
O Cenário Internacional e Outras Mulheres na Liderança
A nível global, a liderança de parlamentos por mulheres ainda é uma minoria estatística, rondando os 22% a 25% do total mundial, segundo dados da União Interparlamentar. No entanto, o passo dado por Cabo Verde alinha o país com exemplos marcantes de liderança no feminino, tanto na Lusofonia como no resto do mundo.
Em Portugal, Assunção Esteves fez história ao tornar-se a primeira mulher Presidente da Assembleia da República, ocupando também o estatuto de segunda figura do Estado. Em Moçambique, personalidades como Verónica Macamo e Esperança Bias consolidaram uma longa tradição de mulheres na liderança parlamentar africana. Mais recentemente, em 2022, Angola assistiu à eleição de Carolina Cerqueira para liderar a sua Assembleia Nacional, num ponto de viragem muito semelhante ao que Cabo Verde vive agora. Fora do espaço lusófono, destacam-se os casos de Nancy Pelosi, que como Speaker da Câmara dos Representantes se tornou a mulher mais poderosa da história política dos Estados Unidos, e de Donatille Mukabalisa no Ruanda, país que lidera o mundo em paridade política com mais de 60% de mulheres no parlamento.
Em quase todos estes cenários internacionais, quando uma mulher chega à presidência do Parlamento, o debate político tende a abrir-se de forma mais evidente para áreas de desenvolvimento social, proteção da família, saúde e igualdade. Esta nova legislatura em Cabo Verde será caracterizada por um cenário desafiante de alternância governativa. O grande teste de Janira Hopffer Almada nos próximos cinco anos será provar que a sua liderança, além de histórica, conseguirá manter o equilíbrio técnico e a paz institucional num parlamento que se prevê altamente combativo.