Distantes nos suportes, mas profundamente alinhadas no propósito, duas jovens artistas cabo-verdianas estão a redefinir o diálogo entre a tradição e o design contemporâneo no espaço lusófono e global. Através de percursos singulares que transformam a memória em ato artístico, Luana Oliveira (Lua) e Edmara Cunha tornaram-se vozes incontornáveis na exaltação da ancestralidade, do sentimento de pertença e da representatividade africana na diáspora.

Luana Oliveira: O Pano di Tera Refletido na Academia e no Design
A partir das salas de aula e das galerias da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), Luana Neves de Oliveira (Lua), jovem de 23 anos natural da ilha de Santiago, transformou o icónico Pano di Tera no centro de um arrojado projeto de investigação e criação gráfica.
Cruzando design, antropologia, performance e memória, o seu trabalho transcende a mera contemplação estética. Luana desconstruiu os padrões tradicionais da panaria cabo-verdiana para erguer uma linguagem contemporânea — materializada num livro de artista estruturado pelas etapas ancestrais do pano (Colheita, Tingimento e Tear), bem como em peças de design e performances interativas que utilizam o corpo e o batuku como arquivos vivos.
Ao levar o Pano di Tera ao espaço académico internacional — e até à atenção do Presidente da República de Cabo Verde —, Lua assume um papel ativo na preservação e reinterpretação da memória coletiva, mostrando que a tradição é uma matéria-prima viva para o futuro.

captura de tela
Edmara Cunha: A Ancestralidade Ganha Vida com as Bonecas Alkebulanis
Se no Porto Luana desenha a memória nos tecidos gráficos do design, no ecossistema da intervenção cultural Edmara Cunha molda essa mesma memória em fios, panos e formas humanas. À frente do projeto Alkebulanis (anteriormente Sara Atelier), a artesã cria bonecas artesanais que são verdadeiros manifestos de autoestima, beleza e representatividade africana.
Inspirando-se no nome ancestral do continente africano (“Alkebulan”), Edmara desenvolve personagens ricas em cores, coroas afro, traços reais e tecidos tradicionais. A sua arte responde diretamente à falta de representação na infância, permitindo que crianças negras se reconheçam nas suas brincadeiras e que a sociedade celebre a diversidade das raízes africanas e crioulas.
Com visibilidade que já alcançou palcos internacionais da diáspora, como o programa Bem-Vindos da RTP África em Lisboa, a artista demonstra como o fazer manual e com propósito pode transformar-se numa poderosa ferramenta pedagógica e de ativismo cultural.
Pontes de Identidade: Duas Formas de Contar a Mesma História
Embora atuem em vertentes distintas — o design gráfico e académico de Luana e a arte têxtil e artesanal de Edmara —, ambas as criadoras partilham uma mesma missão fundamental: usar a matéria e o conceito para educar o olhar e afirmar o orgulho negro e cabo-verdiano.
O Tecido como Linguagem: Tanto os novos padrões do Pano di Tera de Luana como as vestimentas das bonecas de Edmara utilizam o têxtil para tecer histórias de resistência, pertença e continuidade cultural.
A Diáspora como Plataforma: Ambas transformaram a vivência fora de Cabo Verde num catalisador criativo, ocupando espaços de visibilidade (universidades, meios de comunicação e fóruns culturais) para reforçar o lugar da cultura cabo-verdiana no mundo.
Pedagogia do Orgulho: Os dois projetos nascem com uma vocação educativa clara — moldar as perspetivas das novas gerações para que cresçam ancoradas no conhecimento e na exaltação das suas raízes.
Em dois caminhos que se complementam, Luana Oliveira e Edmara Cunha provam que a cultura de Cabo Verde na diáspora não é um eco estático do passado, mas sim uma força viva, vibrante e em constante renovação.





