Nascido na ilha da Boa Vista em 1945, advogado de profissão e consagrado com o Prémio Camões em 2018, Germano Almeida define-se, antes de tudo, como um “contador de histórias”. A sua escrita sem “palavras difíceis” e a sua visão desarmante do mundo nasceram à porta de casa, nas noites sem luz elétrica da sua infância, a ouvir os mais velhos narrar contos ao cair da noite.
Em entrevista concedida à RFI (Radio France Internationale) no festival Correntes d’Escritas, o autor distinguido com o prémio literatura na nona gala de prémios da lusofonia (2025), abriu o baú das suas memórias pessoais e atirou uma provocação direta, ética e contundente à classe política cabo-verdiana: a obrigatoriedade de ler e fazer prova de conhecimento sobre a obra-prima Chiquinho (1947), de Baltasar Lopes da Silva.

A Exigência Formal: Fazer Prova de Leitura de Chiquinho Antes de Tomar Posse
Quando questionado na RFI sobre qual o livro de autor cabo-verdiano que todos os políticos deveriam ler, Germano Almeida foi categórico: nenhum governante deveria tomar posse sem antes fazer prova de leitura obrigatória do romance Chiquinho. Para o Prémio Camões, a razão desta exigência é simples e profunda: “O Chiquinho não é um romance, é a história de Cabo Verde, escrita e escarrada”. Trata-se do verdadeiro raio-X da nossa alma — acumulando a memória das secas, a dor da emigração e a resiliência do povo —, sendo por isso o guia fundamental para que a classe política compreenda a terra e evite cometer as “asneiras” acumuladas ao longo de 50 anos de independência.
Curiosidades Pessoais Reveladas na RFI
Para compreender a autoridade com que Germano faz esta exigência aos políticos, a entrevista à RFI revela o percurso único do próprio escritor com a literatura, a política e a memória nacional:
A Fome de Ler na Infância
Na Boa Vista da sua juventude quase não havia livros. Germano começou por devorar centenas de “romancinhos de cowboy” e ficção científica emprestados, recordando a tristeza de quando terminou de ler os 12 volumes de A Volta ao Mundo de Dois Aventureiros e percebeu que não havia continuação.
A Tragédia da Pedrona e a Origem do Primeiro Livro Perdido
Germano partilhou com detalhe a história do seu primeiríssimo livro — escrito para consumo próprio e que acabou perdido sem nunca ser publicado. Trata-se do relato de uma tragédia real na Boa Vista: numa noite de mau tempo, um barco partiu da Boa Vista em direção ao Sal e naufragou no perigoso canal da Pedrona. Morreram todos os passageiros e tripulantes — entre 10 a 12 homens conhecidos, amigos e parentes do escritor —, com exceção de Roque, um rapaz de 14 ou 15 anos que era pescador como o pai (também falecido no acidente) e que foi o único sobrevivente. Foi essa perda dolorosa que o impulsionou a escrever pela primeira vez.
Do “Deserto Verde” de Angola à Ilha Fantástica
Enviado para o exército português em Angola em 1968 — quando pretendia fugir para se juntar à luta de libertação do PAICV —, o “deserto verde” angolano fê-lo recordar as dunas brancas da Boa Vista, inspirando as histórias que mais tarde formariam o livro Ilha Fantástica.
O Pseudónimo Desmascarado
Nos anos 80, fundou uma revista cultural no Mindelo com Leão Lopes e Rui Figueiredo. Para preencher as páginas vagas, publicou os seus próprios contos sob o pseudónimo de Romualdo Cruz. A farsa durou pouco: “Em Cabo Verde ninguém aceita não saber quem são as pessoas”, e a sua identidade foi rapidamente descoberta.
A Centralidade Intocável de Amílcar Cabral
A par da defesa de Chiquinho, Germano aproveitou a entrevista para sublinhar a importância imensa de Amílcar Cabral nos 50 anos da independência, classificando qualquer tentativa de apagar o seu legado histórico como “uma luta absurda e inútil”.

Germano Almeida galardoado com o Prémio Lusofonia 2025
Ao sugerir que a posse de um cargo público devia estar condicionada à compreensão de Chiquinho, o Prémio Camões não está a propor um capricho literário, mas a exigir responsabilidade histórica. Governar Cabo Verde sem conhecer a fundo as suas raízes é um exercício cego de poder — e a literatura de Baltasar Lopes permanece, meio século depois, como o espelho onde toda a classe política tem o dever de se olhar.





