A música de Cabo Verde veste-se de luto, mas a sua história ganha o brilho da eternidade. Com a partida de José Vieira Duarte — o eterno Djosinha — que nos deixou nesta sexta-feira, dia 5 de Junho de 2026, aos 92 anos, na sua orgulhosa e boémia cidade do Mindelo, encerra-se um dos capítulos mais ricos, elegantes e vibrantes da nossa identidade cultural. Mais do que uma voz inconfundível que uniu o arquipélago à diáspora, ele foi o verdadeiro showman da morabeza.

Para celebrar uma vida que ultrapassou os 70 anos de palcos e paixão, afastamos as cortinas do tempo e mergulhamos nas memórias guardadas nas entrelinhas da sua caminhada. Longe das biografias frias, recordamos o homem, o artista e o mito através de episódios e curiosidades que o tornam imortal.
A Estreia com Sapatos Emprestados (ou Feitos à Medida)
Quando o guitarrista Olavo Bilac levou o pequeno Djosinha, de apenas 7 anos, para cantar discretamente no antigo Cine Éden Park, ninguém imaginava o impacto daquela noite. Ele não só acabou por ser a grande estrela ao interpretar a música brasileira “Deusa do Asfalto”, como essa noite ficou gravada no seu coração por um motivo muito puro: foi a primeira vez na vida que o cantor calçou um par de sapatos, feitos especialmente para a ocasião por um sapateiro amigo da sua mãe. Uma estreia humilde que abriu caminho para os maiores palcos do mundo.
O Nome de Batismo e o Nascimento do Mito
Para o mundo e para a história, ele será para sempre o Djosinha. Mas o homem por trás do microfone e da postura impecável nasceu com o nome de José Vieira Duarte (nascido a 25 de Maio de 1934). O nome Djosinha tornou-se sinónimo de morabeza, de coladeiras ritmadas e de mornas cantadas com uma alma tão profunda que parecia abraçar quem o ouvia.
O Campeão de Futebol que Trocou as Fintas Pelas Notas Musicais
O que muitos fãs mais jovens não sabem é que Djosinha tinha tanta ginga nos pés como na voz. Em 1954, ele sagrou-se campeão regional de futebol ao serviço do histórico Clube Sportivo Mindelense. A sua paixão pelo desporto era evidente, mas o apelo da arte falou mais alto. Das fintas nos relvados (ou na terra batida) da época, ele saltou em definitivo para as fintas melódicas da morna e da coladeira, mantendo sempre o espírito competitivo e de equipa que o desporto lhe ensinou.
O Primeiro Dueto de Adolescência com a Eterna Titina Rodrigues
Djosinha recordava com especial carinho o início de tudo, quando ainda era adolescente. O seu primeiro dueto oficial aconteceu no antigo espaço Castilho, em São Vicente, ao lado de outra voz icónica que Cabo Verde já perdeu: Titina Rodrigues. Juntos, na flor da juventude, interpretaram o tema brasileiro “Quase Certo”. Esse encontro de dois jovens talentos no Mindelo antecipava a explosão cultural que a ilha daria ao mundo nas décadas seguintes.
A Era de Ouro com o “Voz de Cabo Verde”
Imagine a constelação mais brilhante do céu crioulo: Bana, Luis Morais, Morgadinho e Djosinha. Juntos, nos anos 60, eles não criaram apenas canções; eles desenharam o passaporte da identidade cabo-verdiana para o mundo. O Conjunto Voz de Cabo Verde foi a caravela moderna que levou a morna e a coladeira a pisar os palcos da Europa e das Américas, transformando a saudade numa linguagem universal.
A Origem do Apelido que Marcou uma Geração: “Ratcha Camisa”
Se hoje o lembramos como o grande showman da música cabo-verdiana, muito se deve à sua energia eletrizante. Djosinha pertencia a uma linhagem de artistas que transbordavam emoção. Nas suas atuações ao vivo, a entrega era tanta que protagonizou um momento mítico que lhe valeu a alcunha carinhosa de “Ratcha Camisa” (rasga camisa). Ele personificava o ritmo, quebrando a rigidez das apresentações da altura com uma expressividade que contagiava qualquer plateia.
Do Vinil aos Microfones da Rádio nos EUA
A herança musical de Djosinha a solo é monumental: deixou gravados 17 trabalhos editados entre LPs (discos de vinil) e CDs. Mas a sua voz não viajou apenas através da música. Durante 42 anos, Djosinha foi locutor na Rádio Globo, nos Estados Unidos da América. Através das ondas hertzianas, ele entrava diariamente na casa dos milhares de emigrantes cabo-verdianos, matando as saudades da terra e tornando-se a companhia mais fiel da nossa vasta diáspora.
A “Voz das Ilhas” que Uniu o Arquipélago ao Mundo
Como bem descreveu o antropólogo Manuel Brito-Semedo, com a partida de Djosinha, “calou-se a voz das ilhas”. Ele foi um dos esteios do lendário grupo Voz de Cabo Verde. Ao lado de outros titãs da nossa música, Djosinha levou a identidade nacional aos quatro cantos do mundo, fixando os padrões da nossa sonoridade e provando que a nossa pequenez territorial esconde uma imensidão cultural.
A Elegância Inconfundível em Palco
Quem o viu cantar, sabe: Djosinha não se limitava a soltar a voz. Ele vestia a música. Sempre impecável, com uma postura aristocrática mas profundamente calorosa, ele fechava os olhos e parecia viajar para as ilhas a cada verso. O seu cavalheirismo em palco tornou-se a sua marca registada, provando que a música tradicional de Cabo Verde é, acima de tudo, um ato de extrema elegância.
O Poético “Encostar de Portas” no Mindelo Natal
O destino dos grandes poetas guarda sempre uma beleza comovente. Em abril de 2026, poucas semanas antes de falecer, Djosinha despediu-se simbolicamente dos palcos na sua cidade natal. Com a humildade e a poesia que sempre o caracterizaram, ele não chamou àquele momento um adeus definitivo, mas sim um simples “encostar de portas”. Dois dias após receber alta hospitalar, essas portas fecharam-se suavemente nesta sexta-feira para a vida terrena, mas abriram-se de par em par para a imortalidade.

Notas de Eternidade
A voz de Djosinha descansou neste dia 5 de Junho, mas o eco da sua entrega permanecerá vivo em cada vinil arranhado, em cada transmissão de rádio guardada na memória e no eterno mar do Porto Grande que o viu nascer e partir. Que a terra lhe seja leve, mestre da nossa música.
Fonte: @expressodasilhas @rtp
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files