Nascido no Mindelo, em São Vicente, a 18 de julho de 1944, Armando António Boaventura — conhecido na história da nossa música simplesmente como Armando Tito — é uma lenda viva do violão cabo-verdiano. O homem que deu balanço ao repertório de Cesária Évora nos palcos do mundo e serviu de referência aos maiores mestres da guitarra carrega uma trajetória que se confunde com a própria evolução da morna e da coladeira.

Curiosidades de Armando Tito
A Superstição da Mãe e o Ritmo na Frigideira
Armando nasceu numa família de músicos, mas era o 13.º filho e a mãe não queria que ele tocasse por superstição, pois já tinha perdido dois filhos batizados com o nome Armando. Mas a paixão falou mais alto: logo aos 6 anos começou a marcar o ritmo numa simples frigideira e a praticar escondido. Ao ver a vocação indiscutível do filho, o pai (que também achava que a música não dava futuro) acabou por ceder e ensinar-lhe os primeiros acordes no violão.
Tocar na Mítica “Bronze” de B. Léza
Em jovem, no Mindelo, Armando frequentou a casa do histórico compositor Francisco Xavier da Cruz (B. Léza). Foi um dos raríssimos privilegiados da época a ter nas mãos e tocar na “Bronze”, a lendária guitarra trazida de Portugal pelo compositor, uma memória que guarda até hoje com enorme emoção.
Mestre de Katchás e Escolhido por Rendall
No início dos anos 70, foi Armando Tito quem deu a primeira formação de guitarra a Katchás (figura revolucionária na modernização do funaná e fundador dos Tubarões). Anos mais tarde, o mestre Luís Rendall escolheu-o a dedo para o acompanhar no icónico álbum doméstico Memórias de um Violão.
O Início com Cesária e os Grandes da Música
Ainda menor de idade, em 1968, participou numa das primeiras gravações em disco de Cesária Évora (o EP Segredo de um Coração). Décadas depois, percorreria o mundo ao lado da “Diva dos Pés Descalços”, além de ter construído a base harmónica para ícones como Bana, Ildo Lobo, Titina, Lura e Zé Afonso.
O Violão de 50 Anos e o Violino Centenário de Travadinha
Apesar de ter comprado instrumentos topo de gama ao longo da carreira, o seu violão mais estimado continua a ser aquele com que emigrou para Portugal há mais de cinco décadas. Entre as suas relíquias pessoais guarda também o violino centenário (com cerca de 200 anos) que pertenceu ao lendário mestre Travadinha, com quem partilhou noites históricas no Hot Clube de Portugal.

Armando Tito não é apenas um executante virtuoso; é a própria arquitetura do balanço cabo-verdiano. Num tempo em que a música passou a ser produzida em massa, a sua mão esquerda guarda o segredo de uma época em que cada nota tinha de ter peso, intenção e identidade. Mais do que contar a história das nossas cordas, Armando Tito ajudou a construí-la.
Fonte: @caboverdeamusica @somosportugues
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files





