Antes de guiar as primeiras dedilhadas de Katchás ou de segurar o ritmo das digressões mundiais de Cesária Évora, Armando Tito tocava às escondidas. O homem que mais tarde seria apelidado apenas de “O Violão” começou a sua carreira como um pequeno “ladrão de som” da própria casa.
A Proibição e o Baú
Em São Vicente, na década de 1940, a música estava banida para o pequeno Armando. A mãe, que já tinha perdido dois filhos com o mesmo nome, via nos instrumentos uma superstição dolorosa e proibiu-o de aprender. Mas a proibição durava pouco: todas as tardes, assim que a mãe saía para levar o café ao pai, o miúdo de seis anos usava uma faquinha para desaparafusar a tampa do baú onde os instrumentos ficavam trancados.

Tocava em segredo, experimentava as cordas e voltava a fechar tudo antes de ser apanhado. A clandestinidade acabou no dia em que o apanharam a solar. Percebendo que era o melhor da casa, o pai encomendou logo ao afamado Mestre Baptista um violão em miniatura, adaptado às suas mãos de criança.
A Mão Escondida da Música Cabo-Verdiana
A partir daí, Armando Tito tornou-se uma engrenagem fundamental da sonoridade das ilhas, muitas vezes na sombra, mas sempre decisivo:
O Mestre de Katchás
No início dos anos 1970, foi Armando quem orientou os primeiros passos na guitarra do homem que mais tarde revolucionaria a música de Cabo Verde.
O Par de Luís Rendall
O lendário mestre do violão escolheu-o para o acompanhar nas raras gravações domésticas de Memórias de um Violão.
O Pilar de Cesária Évora
Esteve ao lado da “Diva dos Pés Descalços” em 1968, no EP Segredo de um Coração(com o Conjunto Mindelo), e regressou décadas depois para sustentá-la nas grandes digressões internacionais e no álbum Cesária (1995).
Do Baú para a História
Mesmo quando a vida o levou para a carpintaria ou para a cozinha de um navio na diáspora, a música nunca saiu de cena. Em Lisboa, marcou a fase do Voz de Cabo Verde e fundou o grupo Sossabe. Como piscadela de olho ao passado e à sua arte manual, passou a fabricar miniaturas funcionais de violões com cerca de 20 centímetros — instrumentos reais que se deixam tocar.
Homenageado em 2019 no festival Guitarrada do Atlântico, Armando Tito transformou o segredo de infância num legado imensurável. O rapaz que desarmava baús com uma faquinha de cozinha acabou por esculpir a própria memória cultural de Cabo Verde.





