“Porque hoje, se eu canto, é porque alguém teve aquele momento de luz, de inspiração e compôs. Há que respeitar.”
Esta frase de Cremilda Medina resume a essência do seu novo álbum intitulado, Lágrima. Um trabalho que não é apenas mais um disco no mercado mas sim, um manifesto de resgate e entrega absoluta. Conforme revelado em entrevista à revista Bantumen, o projeto nasceu de uma pequena oportunidade: uma candidatura a um edital do Ministério da Cultura para gravar apenas dois temas. Mas a necessidade de “tirar a lágrima para fora” foi tão forte que a artista transformou o que seria algo simples num álbum completo de 13 mornas. Para Cremilda, este disco é a prova de que a música tradicional não se faz por burocracia, mas por uma urgência de alma.

@Cremilda Medina [Facebook]
O que torna este disco único é o seu lado de recuperação histórica. Cremilda não se limitou a cantar; ela mergulhou num processo de pesquisa que durou anos para salvar obras que o tempo estava a apagar. O exemplo mais forte é a morna “Esperança”, de Malaquias Costa. Durante décadas, o mundo pensou que esta era uma peça apenas instrumental, mas um trabalho minucioso de investigação permitiu desenterrar a letra original, devolvendo à música a sua poesia completa.
Porque hoje, se eu canto, é porque alguém teve aquele momento de luz, de inspiração e compôs. Há que respeitar.
Para alcançar este resultado, a artista viveu um isolamento quase total. Cremilda confessa que precisou de “roubar” sentimentos que não eram seus, entrando na pele dos compositores para sentir a dor de cada letra. Hoje, o seu lema é o respeito sagrado por quem escreve. Ela entende que o “perfeito” não é a técnica fria, mas sim o sentir e o pôr para fora com amor e responsabilidade.

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Essa ligação com as raízes de São Vicente é o que traz a naturalidade ao disco. Partilhando o mesmo berço e a mesma entrega que Cesária Évora, Cremilda foge das pressões do mercado. No estúdio, ela criou a sua própria regra para manter a verdade: o ambiente tinha de ser uma serenata de madrugada. Ao gravar sentada, com as luzes quase apagadas, ela conseguiu esquecer as máquinas e cantar com a intimidade de quem está num quintal do Mindelo.
A sonoridade de Lágrima reforça este compromisso com a tradição. Não há batidas eletrónicas, apenas o som puro das cordas e a mestria de músicos como Armando Tito. Além de salvar letras perdidas, o projeto protege a memória de figuras como Dona Teresa da Silva (viúva de Baltasar Lopes), preservando o estilo elegante de cantar que define a história de São Vicente.
Com o apoio de grandes vozes como Ana Firmino, Maria Alice e Nancy Vieira, Lágrima prova que proteger a Morna exige tempo, dedicação e muito respeito pelas origens. Este álbum não grava apenas sons; ele é o resultado de uma caminhada que salva memórias que o tempo não pode apagar.
Fonte: Baseado na entrevista concedida à revista @Bantumen
https://www.bantumen.com/artigo/cremilda-medina-lagrima/