Considerada uma das maiores lendas da cultura tradicional de Cabo Verde, Nha Nácia Gomi foi a voz mais imponente do Finason e a matriarca do Batuku em Santiago. Com um canto que parece brotar da própria terra, ela transformou o improviso numa arma de preservação cultural. Conheça a história da ‘biblioteca viva’ das nossas ilhas.

Ficha Técnica do Artista
- Nome de Nascimento: Maria Inácia Gomes Correia
- Nome Artístico: Nha Nácia Gomi
- Data de Nascimento: 1925
- Data de Falecimento: 4 de Fevereiro de 2011 (86 anos)
- Naturalidade: Santa Cruz, Ilha de Santiago, Cabo Verde
- Géneros Principais: Finason, Batuku
- Instrumentos: Voz, Tchabeta
Biografia e Percurso Musical
A Infância e a Herança Oral de Santiago
Nascida no interior da ilha de Santiago, Nha Nácia Gomi cresceu numa época em que o Batuku e o Finason eram formas de expressão comunitária rurais, frequentemente marginalizadas pelas autoridades coloniais e pelas elites urbanas. Sem nunca ter frequentado a escola formal, Nácia Gomi desenvolveu desde muito jovem uma memória prodigiosa e uma sensibilidade poética fora do comum, aprendendo a cantar de forma autodidata com as matriarcas da sua região.
A Voz do Finason e a Arte do Improviso
Nha Nácia Gomi destacou-se sobretudo no Finason, um género musical e poético de Santiago caracterizado pelo canto solista sem acompanhamento melódico (apenas rítmico), onde o intérprete disserta sobre a vida social, a moral, a história e o quotidiano através de versos improvisados. Com uma voz forte, profunda e carregada de ancestralidade, ela era capaz de cantar durante horas, criando metáforas complexas e provérbios em crioulo cabo-verdiano que educavam e aconselhavam a comunidade.
Ao longo da sua vida, liderou o grupo “Nha Nácia Gomi Cu Sê Mocinhos”, composto por jovens batucadeiras que marcavam o ritmo com a tchabeta (o bater de palmas sobre panos de terra prensados entre as pernas) enquanto ela liderava o canto.
O Legado e o Reconhecimento Nacional
Durante muito tempo, o talento de Nha Nácia Gomi esteve guardado no interior de Santiago. Contudo, nas últimas décadas do século XX, investigadores, etnomúsicos e artistas da nova geração começaram a reconhecer a sua importância como “biblioteca viva” da cultura cabo-verdiana.
A sua música foi registada em álbuns históricos que hoje servem de referência científica e artística para o estudo da música de Cabo Verde. Grandes nomes da música cabo-verdiana moderna, como os Ferro Gaita (que lhe dedicaram o tema “A’ Nacia Gomi” no disco Rei di Tabanka), beberam diretamente da sua fonte.
“O Finason é a nossa história de ontem e de hoje, dita com respeito e com a força da nossa verdade.” — Nha Nácia Gomi
Discografia e Registos de Destaque
- 2005 – Finkadu na Raiz (Um registo crucial da pureza do seu Finason e Batuku)
- Participações em antologias de música tradicional cabo-verdiana promovidas pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde.
Prémios e Distinções
- Homenagem de Estado: Reconhecida oficialmente pelo Governo de Cabo Verde como um dos maiores pilares do Património Cultural Imaterial do país.
- Centenário e Celebração: O seu nome é constantemente celebrado em festivais de música de raiz e iniciativas académicas que promovem a literatura oral e a salvaguarda das tradições de Santiago.
Nha Nácia Gomi não nos deixou apenas música; deixou-nos a prova de que a nossa identidade reside na palavra dita com alma. Para mergulhar profundamente nas letras e nos provérbios que ela imortalizou, domine o crioulo.
📘 Aprenda a língua da rainha:
O guia essencial para entender a alma de Cabo Verde. Disponível na Amazon!
Se gostou deste conteúdo, pode apoiar o projeto pagando-me um café!



