Memórias e conexões da diáspora cabo-verdiana.
O Sol da Praia e a Resposta do Coração

Praia, 29 de Abril de 2026
Minha querida Mariana,
Que alegria receber a tua carta! É como se um pedaço de Lisboa viesse ter comigo, trazendo o cheiro dos teus livros e o burburinho das tuas ruas. Fico tão feliz por saberes que estás bem, que encontraste o teu lugar nessa cidade grande e que o teu trabalho te preenche. Sabia que irias brilhar, minha menina. Sempre tiveste essa luz nos olhos, essa vontade de ir mais além.
Por aqui, o sol continua a aquecer a nossa pele e a nossa alma. A Praia está como sempre, com o seu ritmo próprio, as suas cores vibrantes e o seu povo acolhedor. A pequena Kátia está cada dia mais traquina! Já corre pela casa toda, e as suas primeiras palavras são uma mistura engraçada de crioulo e português. Ela manda-te um beijo estalado, que eu já lhe ensinei a apontar para o céu e a dizer “tia Mariana”.
E o meu jardim, perguntas tu? Ah, as buganvílias! Estão mais bonitas do que nunca, com um roxo tão intenso que parece que querem abraçar o céu. As rosas também estão a desabrochar, e o cheiro a jasmim à noite é de embriagar. A natureza aqui tem uma força que nos lembra que, por mais que a vida nos desafie, a beleza e a esperança sempre encontram um caminho para florescer.
Entendo perfeitamente o que dizes sobre a “sodade”. É uma companheira fiel, não é? Mas não a vejas apenas como um peso. Ela é também a prova do amor que sentes pela tua terra, pela tua gente. É a raiz que te prende, mesmo quando as tuas asas te levam para longe. E é essa raiz que te trará de volta, um dia, quando for a altura certa.
Sabes, Mariana, a vida aqui na Praia tem os seus desafios, como em todo o lado. Mas há uma resiliência no nosso povo, uma capacidade de sorrir mesmo nas dificuldades, que me enche de orgulho. Vemos os barcos a partir, levando os nossos filhos e irmãos em busca de um futuro melhor, e sentimos a dor da partida. Mas também vemos os barcos a chegar, trazendo de volta os que regressam, com novas histórias para contar e um amor renovado pela nossa terra.
As tuas cartas são um bálsamo para a minha alma, minha querida. Elas encurtam a distância e mantêam a nossa ligação forte. Continua a partilhar as tuas aventuras, os teus pensamentos, os teus sonhos. E lembra-te que, por mais longe que estejas, o teu lugar aqui, no meu coração e na nossa Praia, estará sempre guardado.
Com todo o meu amor e a “sodade” que nos une,
Nha Ana
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As palavras de Nha Ana sobre a “sodade” ressoaram em você? Como você mantém vivas as suas raízes e tradições, mesmo quando a vida o leva para novos caminhos? Deixe o seu comentário!