Reflexões sobre a Diáspora e a Identidade Cabo-verdiana

Lisboa, 15 de Maio de 2026
Querida Nha Ana,
As tuas palavras, como sempre, são um bálsamo para a alma. Lembro-me de quando era pequena e me dizias que a “sodade” era como uma sombra que nos acompanha, mas que também nos lembra da luz. E é exatamente isso que sinto. Ela não é um peso, mas uma âncora que me mantém ligada à nossa terra, à nossa gente.
Tenho pensado muito sobre a diáspora, sobre nós, cabo-verdianos espalhados pelo mundo. Somos como sementes levadas pelo vento, que germinam em terras distantes, mas que nunca esquecem o solo de onde vieram. Construímos novas vidas, aprendemos novas línguas, adaptamo-nos a novas culturas, mas o coração, esse, continua a bater ao ritmo do funaná e da morna.
É fascinante observar como a nossa cultura se manifesta aqui em Lisboa. Há restaurantes cabo-verdianos, lojas com produtos da terra, e as nossas músicas ecoam pelas ruas de alguns bairros. É um pedacinho de Cabo Verde transplantado, uma forma de manter viva a nossa identidade, mesmo longe de casa. E é bonito ver como a nossa cultura enriquece a cultura portuguesa, como nos misturamos e nos tornamos parte de algo maior.
Mas também há desafios, Nha Ana. A saudade aperta, a distância magoa, e a luta para nos afirmarmos numa terra estrangeira é constante. Há momentos em que me sinto dividida, entre o que sou aqui e o que sou lá. Mas depois lembro-me das tuas palavras, da força da nossa gente, e encontro a minha identidade na própria diáspora: somos pontes, somos elos, somos a prova de que o amor à terra e à família transcende fronteiras.
Fico feliz em saber que a Kátia está a crescer tão bem. Manda-lhe um beijo e diz-lhe que a tia Mariana está a trabalhar para que, um dia, ela possa vir visitar-me aqui em Lisboa e ver o Tejo, que é tão diferente do nosso mar, mas igualmente belo. E o teu jardim, com as buganvílias roxas, é a imagem que guardo no coração, um lembrete constante da beleza da nossa Praia.
Continua a escrever-me, Nha Ana. As tuas cartas são o meu porto seguro, a minha conexão com a essência de quem sou. E sabe que, por mais longe que eu vá, um pedaço de mim estará sempre contigo, na nossa Praia, sob o sol de Cabo Verde.
Com muito carinho e a “sodade” que nos une,
Mariana
Fim da Série “Cartas da Diáspora”
Como você define a sua identidade em um mundo cada vez mais globalizado? Você sente que a cultura de suas raízes se fortalece ou se transforma com a distância? Compartilhe as suas reflexões conosco!
Cartas da Diáspora: Pontes de Saudade entre Lisboa e Praia Completo
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