A história dos contratados revela raízes que o tempo não apaga, e a reportagem “Nha Terra Nha Cretcheu” surge como um resgate essencial dessas memórias que o Atlântico tentou silenciar.
Ao percorrer as roças de São Tomé, este documentário revela o rosto humano de um ciclo migratório que marcou o século XX cabo-verdiano, expondo as cicatrizes de quem partiu e nunca mais ouviu o seu nome ser chamado para o regresso.
Rostos de uma Viagem sem Regresso
O documentário apresenta-nos personagens que personificam a resiliência da nossa diáspora e que nos fazem querer ouvir cada palavra:
- Alexandrina Gomes Rocha: Que trocou Santo Antão pelas plantações de cacau com apenas 12 anos em dezembro de 1959. O seu olhar ainda procura, nas águas de Porto Alegre, o caminho de volta que o tempo adiou.
- Olária Mendes da Costa: A mulher do Tarrafal que partiu em 1953 e guarda uma fotografia de Cabo Verde como um mapa de um tesouro, a sua única ponte física para as ilhas.
- Adelina Monteiro e Manuel António da Silva: Exemplos da força de Santiago e São Nicolau. Manuel recorda a dureza de ser um “homem livre” sem meios para regressar com a dignidade que o seu suor merecia.
A Dignidade no Limite da Sobrevivência
A realidade exposta é nua e crua: 1123 cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe recebem hoje uma pensão de sobrevivência paga trimestralmente pelo Governo de Cabo Verde, no valor de 122 euros. Para muitos, este montante é o único amparo contra o esquecimento, servindo para saldar as dívidas de uma vida inteira de trabalho árduo nas roças de Monte Café ou Diogo Vaz.
O Direito ao Nome e à Pátria
Um dos momentos mais fortes de “Nha Terra Nha Cretcheu” é o reconhecimento de que o sangue não se apaga. Graças à nova lei da nacionalidade, os descendentes destes contratados podem agora obter a nacionalidade cabo-verdiana de forma gratuita até à quarta geração. É o país a abrir as portas a filhos, netos e bisnetos que, durante anos, viveram num limbo jurídico.
Para saberes mais sobre como funciona este processo e os documentos necessários, consulta os detalhes oficiais no Portal Consular de Cabo Verde.
O ‘Distinu’ Cantado
Esta jornada encontra o seu eco perfeito na música “Distinu”, de Calema e Dino D’Santiago. A letra sobre o porto de Fernão Dias, o peixe podre e a fuba com bichos não é ficção; é a tradução artística e dolorosa do que Alexandrina, Olária, Adelina e Manuel viveram na pele.
A canção fecha o ciclo, transformando o lamento das roças num hino de orgulho que agora corre o mundo.
Vale a pena ver este documentário até ao fim. É um mergulho na nossa identidade, onde a saudade e a resiliência se cruzam em cada terreiro.
Fonte: @NhaTerraNhaCretcheu
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files