O mundo do futebol olha para o Grupo H do Mundial de 2026 com os olhos arregalados, tentando decifrar o que se passa na cabeça de um grupo de ilhéus que se recusa a aceitar os papéis de figurante que a história e os orçamentos lhes tentaram atribuir. Primeiro foi a Espanha, travada num nulo de contornos épicos. Ontem, em Miami, foi a vez de o Uruguai tremer perante a audácia dos Tubarões Azuis.
Diz a sabedoria popular que os contos de fadas pertencem aos livros, mas o que Cabo Verde está a fazer nas relvas da América do Norte é vida real da mais pura. Nas bancadas do estádio em Miami, a nossa cultura tomou conta do espetáculo. A realização deu foco a figuras como o Djodje, a Kady, a Neuza e tantos outros rostos da nossa música a saltar e a cantar no meio daquela maré azul, mas destaco a força e o grito incansável de todos, no estádio ou em qualquer canto, que empurrou a equipa.

E o momento da primeira explosão veio aos 21 minutos. Quando o Kevin Pina encheu o pé e disparou um remate soberbo de fora da área, o nome dele ficou automaticamente imortalizado na nossa história. Aquele não foi só mais um golo; foi o primeiríssimo golo de Cabo Verde na história dos Mundiais, uma verdadeira obra de arte que vamos contar aos nossos netos.
A loucura não ficou só no estádio. Aqui em casa, quando a bola entrou, o prédio quase veio abaixo. Foi um grito uníssono, daqueles que ecoam pelas paredes e pelas janelas do bairro. Às vezes vivemos no nosso canto sem saber bem quem está ao lado, mas bastou aquele golo do Kevin para perceber, pelo barulho e pela festa imediata, que afinal temos vizinhos crioulos mesmo aqui ao lado. O futebol tem destas coisas bonitas: une-nos na distância através do mesmo sangue e da mesma paixão.
Em campo, a garra dos nossos rapazes foi de deixar qualquer um de lágrima no olho. Lutaram incansavelmente por cada centímetro de relva, a correr até à exaustão contra atletas multimilionários. Houve momentos de sofrimento, claro, e alguns autênticos calafrios que podiam ter comprometido o jogo. Ao contrário da exibição monstruosa e segura que fez contra a Espanha, o Vozinha teve algumas abordagens que deixaram o país inteiro de coração nas mãos e com a sensação de que o erro podia custar caro. Talvez a emoção de ter a mãe ali na bancada, a assistir ao jogo mais importante da sua vida, tenha pesado e feito a ansiedade falar mais alto.
Valeu-nos que, lá na frente da área, o Pico Lopes assumiu o papel de autêntico “patrão” da defesa. Limpou tudo por cima, dobrou os espaços e deu a estabilidade que a equipa tanto precisava quando o Uruguai carregou e chegou a dar a volta ao marcador ainda antes do intervalo.
Porque o segredo desta seleção não é um jogador isolado; é o coletivo. Um bloco de irmãos que corre uns pelos outros, que compensa as falhas e as noites menos inspiradas do companheiro, e que acreditou sempre, mesmo quando fomos para o balneário a perder. Tanto acreditaram que, aos 60 minutos, o estádio e o prédio voltaram a tremer. Hélio Varela apareceu no momento exato para assinar o golo do empate, um remate cheio de alma que gelou as aspirações uruguaias e devolveu a justiça ao marcador. Se o golo de Kevin Pina foi histórico pela execução, o de Varela foi o hino à nossa capacidade de reacção e coragem. Segurar aquele 2-2 até ao fim foi uma lição de entreajuda.
Com dois pontos arrancados a ferros contra dois colossos do futebol mundial, Cabo Verde chega à última jornada contra a Arábia Saudita a depender apenas de si. O conto de fadas continua, sim, mas assente no trabalho, na competência e na alma de um povo que mostrou ao planeta que o mar que nos rodeia não nos isola — liga-nos à eternidade.
NH’OPINION NA LÍNGUA DI TERRA
Maz Di cinco anos nka ta fica frenti di um ecrã pa sisti 90m de um jogo, maz onti resolvi odja irmons e ainda bem. Nka rapendi. Ah é primeiro jogo de Cabo Verde que sa sisti nes mundial.
Noz bloco defensivo Sta bem firmi, si bem ki Vozinha onti kre staba emocionado dimaz ku presença Mama ou n’tom t’inda é sa digeri milhões de seguidores ki txobel na instagram pmd é tinha “mó d Mantega”. Certo é ki Kuazi dja nu odjaba blú. Pico pami midjor em campo e claro nos 2 autor de golo, Kevin e Hélio tá fica eternizado na noz memória como País e como arguem. Parcem nhos tem noçon di modi Nhos poi crioulo ta djáaaata na tudu parti mundo i tudu kobón ku ladera onti xintinu.
Nka kre individualiza, jogo podi caiba pa kualker lado, e árbitro… alguns decisões duvidosos. Uruguai? Él xinti mordida de tubarão 🦈, i sem dúvida, nu ka Sta na copa, grupo H pa nu prinxi calendário. Jogo de entrega absoluta, magia na pes de Rodrigues, maturidade de Ryan, sacrifício de Moreira, rapazes Nhos da sangue pa camisola. Equipa muito bem, garra, vontade e lição de resiliência. Mensagem de união e briu d’um coletivo i esperança pa dento e fora de Cabo Verde ki tá ultrapassa futebol. Tudu equipa Sta di parabéns Nhos kontinua tá fazeno sonha.