A identidade de Cabo Verde gravada na arte urbana da periferia parisiense.
Para Malik, a cor da infância era o cinzento dos subúrbios de Paris. Nascido e criado nos blocos de betão de Saint-Denis, o jovem de dezanove anos conhecia o mundo através das linhas do metro e das paredes grafitadas que serviam de tela para a juventude da periferia francesa. Malik era um rapaz da segunda geração da Diáspora: falava francês com os amigos, mas o seu coração batia ao ritmo do crioulo que ouvia em casa.
Ele nunca tinha pisado o solo de Cabo Verde. As ilhas, para ele, eram um território feito de fumo, música e palavras nostálgicas. Eram as histórias que a sua mãe, a dona Albertina, lhe contava na cozinha enquanto preparava o jantar, falando de praias de areia preta na Ilha do Fogo, de montanhas que tocavam as nuvens e de um mar que parecia não ter fim. Malik guardava cada detalhe na mente, transformando essas memórias emprestadas em traços e cores nos seus cadernos de desenho.
Malik era um artista urbano. Com uma mochila cheia de latas de tinta spray, ele procurava dar vida e cor aos cantos esquecidos da cidade. Para ele, o grafite não era vandalismo; era uma forma de gritar ao mundo quem ele era numa metrópole onde os filhos de emigrantes muitas vezes se sentiam invisíveis.
Num sábado de primavera, a associação cultural do bairro organizou um festival de arte e cedeu um enorme muro de betão, com mais de vinte metros de comprimento, junto a uma das principais linhas de comboio de Paris. Vários artistas receberam espaços para pintar, e Malik ficou com a secção central.
Os outros pintores escolheram figuras abstratas, letras complexas ou críticas sociais de estilo futurista. Malik olhou para a parede branca e, por um momento, fechou os olhos. Lembrou-se do sotaque da mãe, do som do navio a apitar no Porto Grande que ouvira num disco antigo e da imagem da morabeza que tentava decifrar desde pequeno.
— O que vais pintar aí, Malik? — perguntou um dos amigos, agitando uma lata de tinta vermelha. — Uma marca? O teu nome em letras gigantes?
— Vou pintar o meu mapa — respondeu Malik, com um sorriso enigmático.
Ele começou a pintar ao meio-dia. Os primeiros traços, feitos com spray preto, desenharam contornos geométricos e imponentes. Mas o que surpreendeu quem passava foram as cores que começaram a preencher o muro. Malik não usou o cinzento ou as cores escuras da cidade. Ele usou o azul-turquesa mais puro para simular a água da Laginha; o amarelo-ouro para as dunas da Boa Vista; o verde-esmeralda para as ribeiras de Santo Antão e o castanho-fogo para o pico do vulcão.
No asfalto cinzento e frio de Paris, Malik estava a fazer nascer, bloco a bloco, o contorno das dez ilhas de Cabo Verde.
No centro do mural, desenhou o rosto de uma mulher idosa, com o olhar focado no horizonte, cujos cabelos se transformavam em ondas do mar que ligavam a Europa à África. Era a representação da saudade, a força que tinha movido os seus pais a cruzar o oceano. À medida que o spray espalhava a tinta no betão, Malik sentia que cada traço o aproximava de uma terra que nunca vira, mas que o definia por inteiro.
Ao final da tarde, quando o sol parisiense começava a descer, o muro estava transformado. Uma multidão de moradores do bairro tinha-se juntado atrás de Malik. Havia jovens da sua idade impressionados com a técnica, mas, mais atrás, um grupo de mulheres cabo-verdianas mais velhas olhava para a pintura em silêncio.
Dona Albertina, que tinha ido levar um casaco ao filho, abriu caminho por entre as pessoas. Quando viu o muro, levou as mãos à boca. Os seus olhos encheram-se de lágrimas ao reconhecer o contorno exato da ilha onde nascera, pintado ali, no meio de Paris, pelo filho que criara longe do mar.
— Tu desenhaste a nossa terra, Malik… — sussurrou a mãe, abraçando-o com força.
— Eu não a desenhei, mãe — respondeu o jovem, limpando as mãos sujas de tinta. — Eu só a trouxe para perto de nós. Ela sempre esteve aqui dentro.
Naquela noite, os comboios que passavam pela linha de Saint-Denis já não viam apenas um muro cinzento e esquecido. Viam um portal de cor e vida, uma prova viva de que a identidade de um povo não se apaga com a distância, e que as dez ilhas de Cabo Verde podem florescer em qualquer asfalto do mundo.
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