A ponte eterna entre a rotina da Diáspora e o calor do regresso a casa.
Para o senhor Adriano, o inverno de Lisboa tinha sempre a cor do ferro. Há mais de trinta anos que as suas manhãs começavam no mesmo compasso: o som do motor do autocarro da Carris, o casaco grosso de lã cinzenta e a passagem diária pela Rotunda de Carriche, a caminho do trabalho na construção civil.
Carriche era o ponto de entrada e saída para milhares de cabo-verdianos que, como ele, tinham deixado as ilhas nas décadas de 80 e 90 com uma mala de cartão na mão e um punhado de sonhos no bolso. Naquela rotunda, cruzavam-se olhares de trabalhadores que carregavam a saudade no peito e o betão nos braços. Lisboa tinha-lhe dado o sustento, mas a sua alma tinha ficado ancorada no cais de pescas da Praia.
Agora, em 2026, com o cabelo completamente branco e as mãos reformadas do trabalho duro, Adriano segurava um pequeno pedaço de papel que parecia pesar mais do que qualquer saca de cimento que já carregara: um bilhete de avião. Lisboa-Praia. Só ida.
O regresso definitivo é o maior mito e o maior desejo de todo o emigrante. Passa-se uma vida inteira a juntar tostões, a construir uma casa na terra natal à distância, tijolo a tijolo, prometendo que “no pr
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