O ritmo indomável que chama a chuva para o campo.
Há quem diga que no interior da Ilha de Santiago a terra tem a cor do bronze e a força do fogo. Na Ribeira da Barca, quando o tempo da seca se prolongava, os homens olhavam para o céu azul, limpo de nuvens, com uma prece nos olhos. Mas o velho Nhô Chico não usava apenas preces; ele usava a música.
Nhô Chico era conhecido em toda a ilha como um dos mais antigos tocadores de gaita — o acordeão diatónico que dá alma ao funaná. A sua gaita era um instrumento gasto, com fivelas de couro remendadas e teclas polidas pelo suor de milhares de festas e casamentos. Quando ele abria o fole do instrumento, não saíam apenas notas musicais; saía a história de um povo que se recusava a ver a esperança secar.
O ano de 2026 tinha trazido um verão longo e impiedoso. Os campos de milho estavam murchos, as folhas dos embondeiros pareciam cinzentas e as ribeiras eram apenas caminhos de pedras secas e poeirentas. Os agricultores da zona já falavam em desespero.
Num final de tarde, quando o sol se escondia atrás das montanhas de Santa Catarina deixando um rasto de luz cor de brasa, Nhô Chico caminhou até ao ponto mais alto da ribeira. Sentou-se numa rocha e pousou a gaita no colo. Logo atrás dele vinha o jovem Dito, o seu neto de doze anos, carregando o ferrinho — a barra de metal que dita o compasso rápido do funaná.
— Avô, para que viemos aqui acima? — perguntou Dito, sacudindo o pó das sandálias. — Toda a gente está na vila a rezar pela chuva.
— Nós também vamos rezar, Dito — respondeu Nhô Chico, ajustando as alças da gaita aos ombros. — Mas nós vamos falar com a terra na língua que ela mais gosta de ouvir. Pega no ferrinho e mantém o compasso. Não pares, aconteça o que acontecer.
Dito olhou para o avô, surpreendido, mas ergueu a faca de metal e raspou-a contra a barra de ferro. O som estridente e rítmico do ferrinho começou a rasgar o silêncio da montanha: tchica-tchica-tchica-tchica.
Nhô Chico fechou os olhos, respirou fundo o ar seco e atacou as teclas da gaita.
O som começou lento, como um lamento pelas colheitas perdidas, mas rapidamente ganhou velocidade. Os dedos do velho moviam-se como relâmpagos. Era o funaná clássico, cru e indomável do interior de Santiago. A música subia pelas encostas da montanha, ecoando nas rochas e espalhando-se por todo o vale. Era um ritmo tão forte que parecia fazer o próprio chão de terra batida vibrar sob os pés de Dito.
Nhô Chico tocava com o corpo todo. O fole da gaita abria e fechava com a força de um fôlego gigante. Ele cantava versos antigos sobre a monda, sobre a força dos antepassados e sobre a resiliência do camponês crioulo.
Passou-se uma hora. O suor escorria pelo rosto do velho tocador, mas o seu olhar mantinha-se fixo no horizonte. E então, o milagre do vale começou a desenhar-se.
Ao longe, por trás do Pico da Antónia, o céu começou a mudar de tom. O azul-escuro da noite foi engolido por nuvens pesadas, escuras e carregadas de humidade. O vento mudou de direção repentinamente, trazendo consigo o cheiro a terra molhada que a ilha já não sentia há meses.
— Continua, Dito! — gritou Nhô Chico, acelerando ainda mais o ritmo da gaita. Os acordes tornaram-se mais intensos, desafiadores, como se estivessem a chamar os trovões.
O primeiro relâmpago iluminou a silhueta das montanhas. Logo a seguir, as primeiras gotas de chuva, grossas e pesadas, começaram a cair sobre o solo ressequido de Santiago. Em poucos minutos, a tempestade desabou sobre a Ribeira da Barca.
A água escorria pelo rosto de Nhô Chico e ensopava a madeira da gaita, mas o velho não parava de tocar. Dito, com a água pelos tornozelos, continuava a rasgar o ferrinho com um sorriso gigante no rosto. Eles dançavam debaixo do dilúvio, enquanto a melodia do funaná se misturava com o som dos trovões e da água a correr pelas encostas.
Lá em baixo, na vila, as pessoas saíam à rua com os braços abertos, celebrando a bênção do céu. Mas quando olhavam para o cume da montanha, conseguiam ouvir, claro e nítido por entre o barulho da tempestade, o sopro firme da gaita de Nhô Chico.
A chuva continuou pela noite dentro, salvando os campos e devolvendo a vida ao interior da ilha. Quando a música finalmente cessou, Nhô Chico limpou a gaita com cuidado com o seu lenço, olhou para o neto e disse:
— Nunca te esqueças, Dito: o funaná não serve apenas para dançar. Ele é a voz que faz a nossa terra lembrar-se de quem nós somos.
Se gostou deste conteúdo, pode apoiar o projeto pagando-me um café!