Há uma narrativa enraizada na nossa cultura desportiva que teima em limitar as atenções, as verbas e os aplausos para uma única paixão: o futebol. No entanto, o verdadeiro pulsar do talento cabo-verdiano tem dado provas consecutivas de que a nossa resiliência e capacidade de superação não cabem nas quatro linhas de um relvado. O desporto em Cabo Verde precisa, urgentemente, de uma reforma de olhar, de uma descentralização de apoios e de uma atenção justa a modalidades e atletas que, mesmo trabalhando em segredo e sofrendo sozinhos, eles fazem o país vencer no mundo.
As condecorações recentes do pugilista David Pina e do fisiculturista Evelino “Lino” Rodrigues são o espelho exato desta urgência. Não estamos a falar apenas de medalhas penduradas ao peito; estamos a falar de atletas que venceram antes sequer de entrar na arena, superando a falta de infraestruturas, a escassez de patrocínios e a barreira do amadorismo institucionalizado.

Quando vemos David Pina receber a Medalha de Mérito Desportivo de 1.º Grau das mãos do Primeiro-Ministro, após o feito histórico da primeira medalha olímpica de Cabo Verde em Paris, o momento é de orgulho, mas também de profunda reflexão. O compromisso assumido pelo Governo em reajustar a Bolsa Atleta e garantir estabilidade para o ciclo olímpico de Los Angeles 2028 é um passo vital. Contudo, este reconhecimento não pode ser uma exceção motivada pelo mediatismo do pódio; tem de ser a norma. O boxe, que historicamente tanto dá ao país, e tantas outras modalidades de combate e individuais, não podem continuar a depender do voluntarismo e do esforço herculano dos atletas e dos seus treinadores na diáspora ou em ginásios improvisados.

Quase em simultâneo, o Presidente da República condecora Evelino Rodrigues com a Medalha de Mérito de Primeira Classe. Um atleta que é bicampeão mundial na categoria Master Physique e que alcançou o estatuto de profissional na IFBB. O culturismo e o fitness exigem uma disciplina, um investimento financeiro em nutrição e preparação que a esmagadora maioria das pessoas desconhece. Ver “Lino” Rodrigues ser distinguido ao mais alto nível é o reconhecimento de um pioneirismo que abre portas a uma juventude que procura alternativas saudáveis, focadas na saúde e na alta competição estética. Quantos “Linos” estamos a perder por falta de uma visão estratégica nacional para o desporto amador e de ginásio?
Descentralizar o desporto significa perceber que o talento cabo-verdiano é plural. Está nas praias com os desportos náuticos, está nos ringues de boxe, nos palcos de culturismo, nas pistas de atletismo e nos pavilhões de basquetebol e andebol. Investir nestas áreas não é retirar mérito ao futebol, mas sim democratizar o acesso ao sucesso e dar ferramentas para que o desporto seja, de facto, um elevador social e um motor de orgulho nacional em todas as suas vertentes.
Precisamos de mais do que palmas institucionais à chegada ao aeroporto ou decretos no Boletim Oficial pós-conquista. Precisamos de políticas públicas contínuas, de incentivos fiscais reais para que as empresas privadas patrocinem modalidades ditas “de nicho”, e de condições de treino dignas em cada ilha. David Pina e Evelino Rodrigues provaram que Cabo Verde tem o material humano mais valioso do mundo: a resiliência. Agora, cabe ao país estar à altura do suor que eles vertem por todos nós.





