A morna que aquece a saudade no inverno dos Estados Unidos.
No inverno rigoroso de Boston, o jovem Lucas carrega consigo apenas o essencial: uma mala de cartão antiga e um violão de pinho gasto pelo uso. Longe do calor do Mindelo, ele descobre que a música é a única ponte capaz de vencer a distância e aquecer o coração da diáspora cabo-verdiana.
No inverno de Boston, o frio corta a pele como uma lâmina de gelo e a neve transforma as ruas de tijolo vermelho numa paisagem branca e silenciosa. Para o jovem Lucas, de vinte e dois anos, aquele cenário parecia saído de um filme, mas não se parecia em nada com o lar. Fazia apenas três meses que tinha deixado o Mindelo, na Ilha de São Vicente, para ir viver com os tios em Dorchester, um dos bairros com a maior comunidade cabo-verdiana nos Estados Unidos.
Lucas tinha viajado com o essencial: uma mala de cartão antiga que pertencera ao seu avô, algumas roupas e, o seu bem mais precioso, um violão de pinho com o tampo gasto pelo uso. O violão era a sua ponte invisível com as ilhas. Quando a saudade apertava e o sotaque americano das ruas se tornava pesado demais, ele refugiava-se no quarto e deixava os dedos correrem pelas cordas.
A comunidade de Boston era forte, mas o ritmo de vida na América era diferente. Toda a gente corria de um emprego para o outro, os dias passavam a correr entre o relógio e as contas para pagar, e o frio de Massachusetts convidava ao isolamento dentro de casa. Lucas sentia falta da vida na rua, do calor das conversas na Praça Nova e do mar de Mindelo a bater na praia da Laginha.
Numa noite de sexta-feira, a tempestade de neve lá fora era tão intensa que os transportes públicos tinham parado. Os tios de Lucas, cansados após uma semana longa de trabalho, conversavam na cozinha enquanto o aroma a cachupa refogada tentava aquecer a casa.
Lucas pegou no seu violão de pinho e foi sentar-se na sala, perto da janela que dava para a rua deserta e congelada. Começou a afinar o instrumento. O som das cordas de nylon a vibrar pareceu mudar imediatamente a energia da divisão.
Ele não começou a tocar uma música rápida. Deixou-se levar pelos acordes de uma morna antiga de B. Léza, lenta e profunda, cujo refrão fala sobre a distância e o mar que separa os corações. À medida que a melodia preenchia a sala, o tio de Lucas, o senhor Manuel, que raramente sorria desde que tinha chegado da fábrica, parou o que estava a fazer na cozinha. Caminhou devagar até à sala e encostou-se ao batente da porta, ouvindo em silêncio.
Os olhos do tio Manuel perderam-se na neve lá fora, mas a sua mente viajava claramente para muito longe dali. Viajava para o cais de acostagem, para o sol de São Vicente e para os amigos da juventude que tinham ficado na memória.
— O teu avô tocava essa mesma morna na lancha, quando íamos para Santo Antão — disse o tio Manuel, com a voz ligeiramente embargada. — O violão dele tinha o mesmo som doce do teu.
Lucas sorriu e, sem parar de tocar, fez um sinal com a cabeça para que o tio se aproximasse. Manuel sentou-se no sofá de veludo e, pela primeira vez em anos, começou a trautear a letra em crioulo, baixinho, acompanhando o ritmo do violão de pinho. A tia de Lucas juntou-se a eles, trazendo três canecas de café quente que cheirava a terra e a sementes tostadas.
Naquela noite, enquanto a tempestade cobria Boston com um manto de gelo, a sala daquela casa em Dorchester transformou-se num pedaço vivo do Mindelo. Não havia frio que entrasse naquelas paredes enquanto o violão de pinho contasse as histórias das ilhas.
A mala de cartão pode guardar roupas, mas é o violão que guarda a alma. Em cada acorde de morna, a distância entre Boston e São Vicente deixa de existir.
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