Antes de pôr os pés num palco ou ouvir o seu nome aplaudido na diáspora, Memé Landim passava os dias a guardar cabras nas encostas da Achada Lora. O pai não queria ouvir falar de música — ser artista era “coisa de bandidos” e a casa precisava de um pastor. Só aos 18 anos é que Memé conseguiu encostar as mãos a uma gaita pela primeira vez. Hoje, cinco décadas e vários clássicos depois, o homem que emigrou para Portugal só para trabalhar na construção civil no dia seguinte é uma lenda viva do Funaná. A história de Memé Landim é um relato fascinante de sacrifícios, resiliência e episódios surpreendentes.
Curiosidades Inéditas sobre Memé Landim

Início como pastor de cabras
Antes de tocar gaita, Memé era pastor de cabras na Achada Lora (ilha de Santiago), onde impressionava as pessoas da comunidade a improvisar e a cantar enquanto imitava os tocadores mais velhos.
Ameaça de expulsão de casa
O pai proibia-o de seguir a música, temendo a incerteza do meio artístico e, acima de tudo, receando perder o excelente pastor em que o filho se tornara. Chegou a ameaçar metê-lo fora de casa se ele tocasse gaita.
Tocou gaita pela primeira vez aos 18 anos
Devido ao respeito e receio da reação do pai, Memé só começou a aprender e a praticar o instrumento já adulto.
Mestre das gaitas artesanais
Na sua juventude, as gaitas eram fabricadas pelos próprios tocadores por ser mais barato. Compravam-se as caixas e os materiais, e em apenas três meses Memé aprendeu tudo o que precisava sobre a construção e afinação do instrumento.
Chegou a Portugal e trabalhou no dia seguinte
Ao emigrar para Portugal em 1971 (deixando a sua gaita em Cabo Verde), começou a trabalhar na construção civil no dia a seguir à chegada. Vestia a mesma roupa com que viajou, tendo apenas tirado a gravata.
O preço da sua primeira gaita na Europa
No início ganhava 82 escudos por dia nas obras e depois 110 escudos nos elétricos. Após seis meses a poupar, comprou uma gaita por 1 150 escudos.
Sustentou a família com a música
Mandava semanalmente “dois contos e quinhentos” (2.500 escudos) para o pai em Cabo Verde, dinheiro que vinha em parte das suas atuações em obras, bailes e pequenos bares da comunidade em Portugal — o que acabou por fazer o pai aceitar e reconhecer o valor da sua carreira.
Concertos improvisados ao domingo
No Cacém, onde vivia com mais 11 pessoas numa mesma casa, os companheiros “obrigavam-no” a tocar aos domingos, gravavam as atuações e ajudavam-no a rentabilizar a sua arte.
Passagem pelos bairros icónicos
Tocou por quase todos os bairros históricos da Linha de Sintra e arredores nos anos 70, como Santa Filomena (Amadora), Pedreira dos Húngaros (Miraflores), Damaia, Buraca e Fontainhas.
O clássico Canga Boi só saiu em 1999
Apesar de ter emigrado para França em 1977 e de ter uma longa carreira nos bailes, o seu icónico primeiro álbum só foi gravado e lançado em 1999 (com Zeca di Nha Reinalda), tornando-se na banda sonora da emigração.
Defensor do Cotxipó
Ao contrário dos críticos mais conservadores que acusam o ritmo Cotxipó (mais acelerado) de estragar a tradição, Memé defende abertamente que o estilo é para os jovens e pode coexistir perfeitamente com o Funaná tradicional.
Com mais de meio século de carreira, a longevidade de Memé Landim prova que a sua arte sempre esteve além do tempo e das barreiras geográficas. Mais do que preservar a tradição do Funaná, o seu percurso representa a capacidade de transformar a saudade, o trabalho árduo e a cultura de um povo num legado sonoro vivo que continua a embalar gerações dentro e fora de Cabo Verde.
Fonte: Informações extraídas de entrevista concedida à BANTUMEN (2024).
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files





