Falar de Vitório Tavares, ou simplesmente Bitori Nha Bibinha, é falar do funaná puro, sem filtros. Nascido em 1938 em Milho Branco [São Domingos], ele é muito mais do que um sobrevivente: é o homem que segurou as pontas da nossa música tradicional quando o estilo era visto de lado, e que acabou a dar espetáculo pelo mundo fora quando muitos pensavam que já era hora de descansar.
Fugir para as roças de São Tomé por amor à gaita
A vida de Bitori dava um filme. Sem nunca ter ido à escola, ele apaixonou-se pela gaita de boca ainda miúdo, mas o que ele queria mesmo era o acordeão diatónico — a famosa gaita. Só que em Santiago, naquela altura, comprar uma gaita era quase impossível para quem não tinha posses.
Aos 17 anos, Bitori teve uma daquelas ideias malucas de miúdo: meteu na cabeça que ia para São Tomé e Príncipe juntar dinheiro. Como era menor, falsificou a idade na certidão de nascimento, fugiu sem a mãe saber e embarcou. Lá nas roças trabalhou no duro: capinou a terra, cortou cabelo aos companheiros e subiu a palmeiras perigosas para colher dendê. Valeu a pena. Juntou 750 escudos, comprou a gaita e regressou a Cabo Verde no final dos anos 50. Para sustentar a casa na Praia, trabalhou anos como pedreiro, tocando o seu fole sempre que podia.

O mestre que inspirou os Ferro Gaita
Bitori nunca foi de cantar, o negócio dele sempre foi fazer a gaita falar. Músicas como “Tra Chapéu”, “Mó na mama” e “Cabalo” tornaram-se autênticos hinos do funaná de ferro e gaita.
Para percebermos a importância dele: nos anos 90, quando o funaná tradicional parecia estar a perder força para os ritmos eletrónicos, foi Bitori quem deu a mão aos mais novos. O Iduíno, líder dos Ferro Gaita, aprendeu a tocar precisamente com as lições e a paciência de Bitori lá na Achadinha.
A grande reviravolta internacional só chegou em 2016. A editora Analog Africa descobriu o disco que ele tinha gravado em 1998 com o Chando Graciosa e decidiu relançá-lo com o título “Legend of Funaná”. Com quase 80 anos, Bitori viu-se de repente a viajar pelo mundo e a tocar em festivais enormes na Europa, como o Roskilde e o Womex. Quem diria?

O presente: Alunos, Kankan e o sonho de cantar Mornas
Hoje, quem vai à casa do mestre na Achadinha encontra um homem cheio de vida. Ele continua a ensinar os mais novos a tocar (embora agora cobre 5 mil escudos adiantados para não levar calotes). Além disso, a casa dele é muito conhecida por outra tradição: o fabrico e a venda de kankan (rapé artesanal), que atrai sempre muita gente do bairro.
Mas o mestre recusa-se a ficar parado no tempo. Conhecido pelo ritmo rápido do funaná, Bitori surpreendeu há pouco tempo ao dizer que o seu grande sonho agora é gravar um álbum de mornas e coladeiras, mostrando o que vale na guitarra e no violão antes de se despedir dos palcos. O projeto já foi apresentado ao Ministério da Cultura e o mestre só espera pelos apoios para avançar.
Bitori Nha Bibinha é a prova de que a nossa cultura é dura de roer. Ele trouxe o ritmo das roças de São Tomé, animou as festas de Santiago e pôs a Europa a dançar. Uma lenda viva que continua a dar o ritmo a Cabo Verde.
Fica com este clássico interpretada pelo Chando Graciosa com o mestre Bitori na gaita:
Fonte:@inforpress @caboverdeamusica
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files