Legislativas 2026: Um Debate de Surdos e de Contas que Não Batem
Por Equipa de Opinião Cabo Verde Files
O debate de 08 de maio foi, em larga medida, uma oportunidade perdida. Embora tenha durado mais de duas horas e meia, o que se viu foi um “diálogo de surdos” onde os ataques pessoais e as promessas sem lastro financeiro muitas vezes atropelaram a substância política. No Cabo Verde Files, não nos ficamos pela superfície. Aqui está a análise dura do que falhou.
1. Ulisses Correia e Silva: O Refúgio nos Números
O atual Primeiro-Ministro (MpD) apresentou-se blindado por estatísticas macroeconómicas. No entanto, a sua “arrogância dos números” ignorou a realidade gritante do terreno. Ao focar-se obsessivamente na resiliência e no crescimento de 7,3%, Ulisses falhou em explicar por que razão esse crescimento não trava a emigração jovem nem resolve a carestia de vida. O seu discurso soou a um Cabo Verde de laboratório, distante das dificuldades de quem vive no mundo rural ou nos bairros periféricos.
2. Francisco Carvalho: O Labirinto do Populismo
O líder do PAICV/PV trouxe a proposta mais barulhenta: passagens de avião a 5.000 ECV. Mas onde está o plano de viabilidade? Carvalho foi incapaz de explicar como financiaria este subsídio massivo sem rebentar com o Orçamento de Estado ou endividar ainda mais as próximas gerações. Foi um discurso desenhado para o “aplauso fácil”, mas que derrapou na falta de rigor técnico e na incapacidade de apresentar alternativas estruturais além do assistencialismo estatal.
3. UCID e PP: Crítica Sem Alternativa Consolidada
João Santos Luís (UCID) e Amândio Vicente (PP) foram exímios no diagnóstico dos problemas — corrupção, gordura estatal, má gestão dos transportes — mas continuam a falhar na “receita”. A UCID parece presa a uma eterna promessa de descentralização que nunca detalha, enquanto o PP, embora assertivo na ética, corre o risco de ser visto como um partido de “nota única” focado apenas no corte de despesas, sem uma visão macro para o desenvolvimento industrial ou tecnológico do país.
4. Jónica Brito: A Lufada de Ar que se Perdeu no Tempo
A candidata do PTS foi a voz mais autêntica em termos de representatividade, mas acabou engolida pelo formato do debate e pela agressividade dos veteranos. A sua crítica ao bipartidarismo é válida, mas as suas propostas para a Economia Azul ainda carecem de densidade política para serem vistas como uma alternativa de governo real e não apenas um protesto eleitoral.
O Grande Falhanço: As Omissões
É inaceitável que num debate desta dimensão se tenha falado tão pouco de Segurança Pública, Saúde Mental, Energia Renovável e Diáspora. Os candidatos perderam tempo em picardias sobre quem “gastou mais em viagens” enquanto o país espera por soluções para a insegurança nas cidades e para a transição energética que tarda em aliviar a fatura da luz.
Conclusão: Sobrou Retórica, Faltou Visão
O debate foi um espetáculo de entretenimento político, mas um exercício pobre de esclarecimento. Cabo Verde não precisa de líderes que apenas saibam apontar o dedo ou ler tabelas do FMI; precisa de líderes que saibam como transformar a riqueza estatística em dignidade humana. A 17 de maio, o eleitor terá de escolher entre o “mais do mesmo” ou promessas que podem ser castelos na areia.
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