Com a partida de João Batista Guerreiro Velhinho Rodrigues — eternizado no coração e na memória popular como Nhu Puxin e Nastaci Lopi —, a cultura cabo-verdiana perdeu um dos seus pilares mais autênticos. Nascido em Ribeira da Barca (Santiago) e com profundas ligações que o associam também à Ilha do Fogo no imaginário popular, o artista viveu durante longos anos na zona de Achada Santo António, na Cidade da Praia, antes de se fixar em Boston, nos Estados Unidos. Foi aí, no hospital Boston Medical Center, que faleceu a 26 de abril de 2024, aos 81 anos. O seu corpo regressou às ilhas para repousar na terra natal, fechando um ciclo que abriu definitivamente as portas da história para um legado grandioso.

A versatilidade de João Batista Rodrigues ia muito além da comédia: em 1969 destacou-se como vocalista da lendária Banda Sodade — com uma voz marcante comparada por colegas à de Ildo Lobo — e, mais tarde, como comunicador de rádio e televisão em programas icónicos como “Na Kanbar do Sol”. No entanto, foi com “As Maravilhosas Aventuras de Nhu Puxin contadas por Nastaci Lopi” que ele marcou definitivamente as décadas de 80 e 90.
Numa era dominada por cliques, algoritmos e vídeos virais, a dimensão da sua obra ganha ainda maior relevo. Nhu Puxin conquistou todo o arquipélago e a sua vasta diáspora sem a ajuda da internet ou de qualquer rede de divulgação em massa. Ele não precisou de plataformas digitais para ser massivo; a sua rede de distribuição foi a mais humana e genuína de todas: o passa-a-palavra, as frequências de rádio e as lendárias cassetes áudio que passavam de mão em mão.
As gravações com as suas historietas viajavam nas malas de quem partia. Uma cassete gravada na Praia rodava em Boston, Roterdão ou Lisboa até a fita gastar, servindo como o mais poderoso e caloroso remédio contra a sodade. Através do rádio e da televisão, a sua voz tornou-se parte da rotina diária de quase todas as casas de Cabo Verde, aproximando ilhas, gerações e oceanos.
O seu contributo inquestionável tem raiz no domínio absoluto da tradição oral e da riqueza expressiva do crioulo. Nhu Puxin não se limitava a contar piadas; ele construía narrativas imersivas sobre as vivências insulares, as secas, as burocracias e as pequenas astúcias do povo em áudios antológicos. Usava o ritmo, as pausas e um timing cómico cirúrgico para transformar o quotidiano numa verdadeira peça de teatro falada. A sua sátira era apurada, mas profundamente afetuosa — um espelho onde o cabo-verdiano se reconhecia e aprendia a rir das suas próprias contradições e dificuldades.
Ao elevar a conversa de rua e o conto popular ao nível de arte performativa, ele fez o trabalho mais difícil e solitário: inventou o palco. Reconhecido pela comunidade artística contemporânea como o verdadeiro pioneiro do stand-up comedye do humor de sátira em Cabo Verde, Nhu Puxin provou que o humor em crioulo tinha valor cultural, dignidade e um público sedento por se ouvir. Ele tornou-se a semente fundacional que abriu portas e inspirou diretamente todos os comediantes e criadores digitais que vieram a seguir.

captura de tela @Carlos Andrade [Facebook
João Batista Rodrigues partiu, mas o seu impacto permanece intocável no arquivo da nossa memória coletiva. O seu legado deixa-nos uma lição eterna: a verdadeira popularidade e o estatuto de mito não dependem da tecnologia de uma época, mas sim da capacidade genuína de tocar na alma, na linguagem e na identidade de um povo.





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