A partida de uma figura de grande relevo público é sempre um momento de reflexão sobre a dimensão do legado deixado ao país. O desaparecimento de Alberto Mota Gomes_23 de agosto_na cidade da Praia aos 91 anos, representa a perda de um homem cuja vida se cruzou com momentos decisivos da construção de Cabo Verde. A sua trajetória destaca-se por uma rara excelência em áreas distintas, unindo o rigor científico da hidrogeologia à paixão mobilizadora do futebol. Analisar o seu percurso é compreender como o talento e o amor à pátria podem transformar o panorama de uma nação.
No plano científico e académico, Alberto Mota Gomes inscreveu o seu nome na história como o primeiro cabo-verdiano a dedicar-se formalmente à hidrogeologia. Numa nação insular onde a gestão dos recursos hídricos é vital para a sobrevivência e desenvolvimento socioeconómico, o seu trabalho abriu caminhos pioneiros no estudo da água e na vulcanologia. Enquanto docente e investigador na Universidade de Cabo Verde, formou gerações de técnicos e ajudou a criar bases sólidas de conhecimento sobre o território, um contributo merecidamente reconhecido pelo Governo e pela comunidade científica nacional.

O primeiro hidrogeólogo de Cabo Verde e o histórico primeiro selecionador nacional de futebol🇨🇻
Paralelamente à carreira científica, a sua paixão pelo desporto marcou para sempre o futebol cabo-verdiano. Mota Gomes assumiu a responsabilidade histórica de ser o primeiro selecionador nacional de Cabo Verde, orientando a equipa nos seus primórdios e liderando a seleção na marcante Taça Amílcar Cabral em 1978. Além do trabalho em campo e do seu forte vínculo ao Clube Desportivo Travadores, deu um contributo decisivo à organização do desporto enquanto presidente da Associação Regional de Futebol de Santiago Sul.
Ao despedir-se na Prainha e com o seu descanso final no Cemitério da Várzea, Alberto Mota Gomes deixa uma herança intangível de cidadania e dedicação. A sua vida demonstra que o progresso de um país se constrói com rigor nas ideias e paixão pelas causas coletivas, garantindo-lhe um lugar eterno na memória e na história de Cabo Verde.





