Durante décadas, a literatura cabo-verdiana foi contada predominantemente por vozes masculinas. Quando olhamos para a prateleira dos grandes clássicos, um nome destaca-se não apenas pelo pioneirismo, mas pela coragem e profundidade com que olhou para as entranhas da sociedade: Dina Salústio (nome literário de Bernardina Oliveira).

Aqui ficam algumas curiosidades fascinantes sobre esta figura incontornável da cultura cabo-verdiana:
Uma estreia madura e sem pressa
Nascida na ilha de Santo Antão, Dina construiu uma carreira sólida como assistente social, jornalista e comunicadora. Experimentou a escrita e o olhar sobre a sociedade em diversos países antes de decidir publicar o seu primeiro livro. A sua estreia literária deu-se em 1994, com a coletânea de contos Mornas Eram as Noites, aos 53 anos de idade. O tempo de maturação deu à sua obra uma densidade e uma lucidez ímpares.
A mulher que quebrou o tabu do romance
Em 1998, Dina Salústio inscreveu para sempre o seu nome na história ao publicar A Louca de Serrano. Com esta obra, tornou-se a primeira mulher cabo-verdiana a escrever e publicar um romance no país. Ela abriu a porta para que gerações de escritoras que vieram a seguir vissem a sua própria voz como literatura de pleno direito.
A denúncia social vestida de poesia
A escrita de Dina Salústio não existe num vácuo estético. Com uma formação profundamente ligada ao trabalho social e à investigação sobre a violência contra as mulheres, o seu texto é ao mesmo tempo poético e visceralmente impiedoso. Ela desconstrói mitos, expõe a marginalidade social, a pobreza e a condição feminina num arquipélago onde as dores invisíveis muitas vezes se escondem atrás da paisagem.
Co-fundadora da Academia Cabo-Verdiana de Letras
O seu compromisso com as palavras vai além dos seus próprios livros. Dina Salústio é uma das fundadoras da Academia Cabo-Verdiana de Letras, ajudando a institucionalizar, preservar e promover a memória literária e a produção intelectual do seu país.
“Escrever sobre as mulheres não é um ato de isolamento, mas de revelação.”
Dina Salústio provou que nunca é tarde para reivindicar o espaço da fala — e que a literatura feita por mulheres em Cabo Verde não é uma nota de rodapé, mas o próprio coração da narrativa nacional.





