O canto místico do oceano na Praia de Chaves.
O mar da Boa Vista tem uma voz que não se cala. Na Praia de Chaves, as ondas rebentam com uma força antiga, desenhando e apagando pegadas nas dunas que o vento traz do deserto do Sara. Para a maioria das pessoas, aquele som é apenas o bater compassado da água nas rochas. Mas para o velho Djunga, o mar era uma orquestra completa.
Djunga vivia numa pequena casa de pedra, de frente para o Atlântico. Os seus cabelos brancos imitavam a espuma das ondas e as suas mãos guardavam os calos de uma vida inteira a dedilhar as cordas de um violão de pinho. Ele não tocava para ganhar dinheiro, nem para os turistas nos grandes resorts. Djunga tocava para acalmar a saudade dos que já tinham partido e para manter vivas as mornas que o seu pai lhe ensinara.
Era primavera, a época em que as baleias de bossa visitam as águas mornas da Boa Vista para dar à luz e cuidar dos seus baleotes. Durante o dia, os barcos de observação cruzavam o horizonte carregados de visitantes ansiosos por um vislumbre das caudas gigantescas a rasgar a água. Mas era à noite que a verdadeira magia acontecia.
Numa noite de lua cheia, quando o céu parecia uma rede de pescador salpicada de estrelas brilhantes, Djunga sentou-se na sua velha cadeira de balanço, na varanda de casa. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelo murmúrio suave da maré baixa.
Ele afinou o violão. Os seus dedos, embora castigados pelo tempo, moveram-se com uma precisão cirúrgica pelas cordas de nylon. Começou a tocar os primeiros acordes de “Mar Azul”, uma das mornas mais doces e melancólicas do arquipélago. A melodia flutuou na brisa da noite, caminhando sobre a areia até se perder na imensidão escura do oceano.
Foi então que aconteceu.
Assim que os primeiros acordes do refrão ecoaram, a cerca de duzentos metros da costa, a superfície da água rompeu-se sem barulho. Uma silhueta monumental ergueu-se a meia-altura: uma baleia de bossa, com o corpo prateado a refletir a luz da lua.
Djunga parou de tocar por um segundo, com o coração a bater acelerado no peito. Mas, em vez de mergulhar, o animal soltou um sopro de vapor de água que subiu como uma nuvem de cristal no ar. E, logo a seguir, das profundezas do mar, veio um som.
Não era um guincho comum de animal. Era um canto longo, profundo, uma nota subaquática que vibrava no chão de pedra da varanda e ecoava na caixa de ressonância do violão de Djunga. O som tinha a exata cadência da morna. Era triste, pausado, carregado de uma sodade que parecia mais antiga do que as próprias ilhas.
— Estás a acompanhar-me, criatura? — sussurrou o velho, com os olhos húmidos de emoção.
Com os dedos a tremer levemente, Djunga voltou a atacar as cordas. Fechou os olhos e entregou-se ao ritmo. A baleia respondia. A cada nota mais alta que o violão chorava, o gigante do mar soltava um lamento harmónico que se encaixava perfeitamente na melodia. Era um dueto impossível entre a terra e o mar, entre o instrumento do homem e a voz do oceano.
Os peixes voadores saltavam fora da água como se fossem notas musicais prateadas. O vento parecia ter parado de soprar para não perturbar aquele concerto único. Durante mais de uma hora, o velho tocador de Mindelo e o gigante da Boa Vista partilharam a mesma partitura invisível, unidos pela linguagem universal da melodia crioula.
Quando a morna chegou ao fim, no último e prolongado acorde de violão, a baleia ergueu a sua cauda gigantesca no ar, bateu suavemente na superfície da água como se estivesse a aplaudir e submergiu lentamente, deixando para trás apenas uma série de círculos perfeitos na água espelhada pela lua.
Djunga pousou o violão no colo. O silêncio regressou à Praia de Chaves, mas já não era o mesmo silêncio de antes. Era um silêncio preenchido por uma paz absoluta.
No dia seguinte, os turistas continuaram a tirar fotografias e os biólogos continuaram a registar as rotas dos animais nos seus computadores. Ninguém saberia o que se passara ali. Mas nas noites seguintes, sempre que o vento acalmava, quem passava perto da casa do velho Djunga jurava que o mar já não batia nas rochas da mesma forma — agora, as ondas pareciam cantar.
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